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Rabiscos e divagações

Auto-retrato
Pernambucano, residente no Rio de Janeiro. Analista de Sistemas. Casado, com quatro filhos.
Contato
“Só é cantador quem traz no peito o cheiro e a cor de sua terra, a marca de sangue de seus mortos e a certeza de luta de seus vivos”
Vital Farias


wAcervo:


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A entrevista
A espera
A fuga
A Mata do Caboclo
A ressaca
A vingança
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wDivagações e citações - Sexta-feira, Maio 28, 2004



Pisei nos tamancos?

Não sei como foi que ela chegou ao Agreste.
Nunca me disse nem perguntei.
Veio, deixou um comentário inteligente e fui ao blogue dela.
Excelente!
Lá, Beduda assinava todas as postagens.
Inclui entre os elos agrestinos e vi que Agreste também estava entre os blogues apontados por ela.
Minha cabeça às vezes é apenas um separador de orelhas.
Beduda sempre postava poesias de Lara Santos.
Um dia, caiu a ficha, como se diz no Brasil.
Beduda é a própria Lara Santos.
Compositora e cantora portuguesa.
Suas letras são belos poemas.
Gosto de suas músicas e de sua interpretação.
Agora, resolveu exagerar e incluir óleo de Maat.
Deste jeito, Música e Letraserá indicado pelo portal da UNESCO como já o é Verso e reverso.

Desavisadamente, eu me meti numa polêmica entre lusos.
Lara homenageou Amália.
Até aí, nada demais.
Aqui no Agreste já foi publicada Estranha forma de vida de Amália Rodrigues e Alfredo Marceneiro.

Em um dos comentários, Zé, de Letras ao Acaso, associou Amália à lembrança do salazarismo.
Em meu comentário lá, mesmo não entrando frontalmente na polêmica, quis registrar que Amália, de quem gosto muito, é a voz de Portugal.
Aproveitei o embalo e declarei que atualmente a maior expressão da música portuguesa é Dulce Pontes.
Na verdade, acho mais que isto.
Para mim, Dulce Pontes é maior cantora de música popular da atualidade.
Não apenas de Portugal, mas de todo o Mundo.

A cantora Valéria Mendez, em seu comentário, aqui mesmo em Agreste, passou-me um pito.
Valéria, agradeço a honra de sua visita.
Concordo que Amália foi a expressão máxima da música portuguesa, notadamente do fado.
Democraticamente, discordamos em relação a Dulce Pontes.

A música de Vagner é nazista?

A outra questão, mais importante, é a apropriação de símbolos nacionais pelos regimes autoritários.
Muitas vezes estes símbolos são constituídos pelo próprio regime e são efêmeros.
Na maioria das vezes, os regimes se apropriam de representantes das culturas nacionais e populares, até mesmo à revelia.
Durante muito tempo, os intelectuais brasileiros não gostavam de Pelé, pois ele era associado ao Regime Militar.
Pelé foi campeão mundial em 1958, aos dezessete anos de idade.
A Ditadura Militar teve início em 1 de abril de 1964.
O compromisso de Pelé era jogar bola e ele o cumpriu como ninguém.
Dizia-se que Garrincha era mais jogador e Pelé mais atleta.
Compararam Pelé ao moçambicano Eusébio, ao argentino Di Estefano, ao húngaro Puskas, aos brasileiros Zizinho, Ademir, Jair da Rosa, Tim e uma relação infindável.
Maradona acha que Rivelino e Di Estefano foram os maiores.
Manoel Carlos acha que Ademir da Guia foi melhor que Rivelino.

Não é saber quem foi melhor, mas saber que muitos expressaram a cultura do seu povo e, por isto mesmo, foram usados pelos regimes.
Quando Pinochet quis mostrar ao Mundo que não transformara o Estádio Nacional em campo de concentração, com cerca de trinta mil prisioneiros, evacuou o estádio e realizou uma partida entre uma equipe chilena e o Santos.
Pelé, no dia do jogo, alegou contusão e não viajou.

Nós brasileiros não associamos nem dissociamos Amália do salazarismo.
Para nós, Amália é sinônimo de fado, e fado é, sobretudo, Amália.
Com a Revolução dos Cravos, vimos uma das maiores demonstrações de solidariedade de classe, pois os banqueiros portugueses, além de ministros e o próprio Marcelo Caetano, vieram para o Brasil e patrocinados pelo BNDES refizeram suas enormes fortunas.
Herança maldita que pagamos com suor e sangue.
Queríamos Zeca Afonso, Carlos Clara Gomes, Agostinho Neto, Bonga, Vasco Cabral, Rui Shangara, Craveirinha, Alexandre Langa e Amália Rodrigues, claro!

Víctor Jara

Em 1973, foi assassinado o jovem músico chileno Victor Jara.
Seu crime: cantar a música do seu povo para o seu povo.
Ele e Violeta Parra desenvolviam um trabalho muito interessante.
No Brasil, o assassinato de Victor Jara teve duas versões.
A primeira, que fora torturado e assassinado na cadeia, uma semana após o golpe.
A outra, mais trágica.
No Estádio Nacional do Chile, entre os milhares de presos estava Victor Jara.
Com o seu violão, não parava de cantar músicas populares chilenas.
Mandaram-no parar de tocar e ele desobedeceu.
Cortaram-lhe as mãos e disseram: - toque agora!
Ao invés de chorar e gritar de dor, ele cantou.
Foi metralhado.

Deixou viúva Joan e órfãs Amanda e Manuela.
Deixou no ar um canto sublime.
Ficou preso em nossa garganta um grito de dor.

Gosto do trabalho da Brigada Víctor Jara de Portugal.
Creio que ela expressa a música portuguesa.
Feita em um sítio português, esta afirmativa certamente geraria polêmica, pois logo alguém compararia a Brigada com o Grupo MadreDeus.
Enquanto isto, ouvirei a Oficina de Cordas de Pernambuco e concluirei o que pretendia postar hoje sobre o templo da cultura pernambucana, a verdadeira ilumiara: Oficina Brennand.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Sexta-feira, Maio 28, 2004
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wDivagações e citações - Terça-feira, Maio 25, 2004



Analista de Sistemas

A discussão começou quando alguém se referiu à mais antiga das profissões.
Antes que o Analista de Sistemas conseguisse se manifestar, o médico disse:
- nós, médicos, desde a Grécia Antiga temos uma profissão, inclusive com juramento.
Antecipando-se ao Analista de Sistemas, o advogado retrucou:
- e o código de Hamurabi foi criado por quem? Um advogado, é claro!
O engenheiro conseguiu, antes do Analista de Sistemas, dizer:
- as maravilhas do Mundo Antigo foram construídas por engenheiros.
O Analista de Sistemas não conseguiu falar; antes dele o teatrólogo se referiu a Esopo, o filósofo desencavou pensadores orientais, o sacerdote lembrou antigos rituais, por fim, o arquiteto disse:
- não me levem a mal, mas Deus foi o arquiteto do Universo, portanto, não resta dúvida sobre qual a mais antiga profissão.
Apenas o Analista de Sistemas não falara, mas ainda disse:
- discordo, nós somos os mais antigos profissionais.
- como?! Antes do Universo só existia o caos!
- e qual profissional vocês acham que criou o caos?

Apenas isto explica porque não consigo comentar em alguns blogues, nem consigo visitar outros...
Algum colega meu, pois sou Analista de Sistemas, certamente é o responsável.

Claro que durante cinco dias saí completamente do ar.
Meu aniversário foi no dia 19 e ela veio, ontem retornou a Mato Grosso.
Desde ontem, tem sido difícil me mover pelo universo bloguístico

Cadernos da Bélgica

Os "flamands" são batavos?
Como não?
Na Bélgica fala-se apenas francês, não é?
Não?! É belga?
Sueco, Belga, Holandês... no fundo é tudo alemão!
Quem disse que não?
Mesmo que não seja assim, todo mundo se dá bem na Bélgica.
Cada carta que chega de lá traz notícias do paraíso.
Apenas um defeito: o frio, mas para enfrentá-lo, todos têm coleções de casacos de peles.
Alguém tem alguma dúvida sobre como é a vida na Bélgica?
Não indico um roteiro turístico, mas uma pequena coleção de contos ambientados na Bélgica.
Cada conto é um texto revelador de uma escritora sensível e observadora; capaz de apreender o drama em cada cena cotidiana.
Além disto, há um fio condutor a unir todos os contos, a situação, real, não romantizada, dos imigrantes.
Sugiro uma ida a Cadernos da Bélgica, um blogue desmistificador.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Terça-feira, Maio 25, 2004
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wDivagações e citações - Quarta-feira, Maio 19, 2004



Vozes d´África

Vi, senti, vivi e amei África.
Semanalmente serei África.
África agrestina.
Agreste africano.
Antes, prefiro que a África fale por si.
Três parágrafos.
Três autores africanos.
África tem voz própria.


E se sentou a derivar memórias, ondas só de chegar. A cegueira aditava valor a essa caixa de lembranças do tempo em que ainda podia ver. Recordava Irene com seu mulato Marcelino. Atrevimento desses sempre se paga com coração. O tempero da alma de Irene se revelara desde que ela desembarcara em Moçambique. Irene cegara a Pebane sem modos de ocupadora, ela em si requerendo apenas o espreitar respeitoso de quem não quer posse nem domínio. Se comportava como era: estrangeira, vivendo em território colonial.

Mia Couto in Vinte e Zinco.

Os lábios de Zeca tremeram e distenderam-se levemente, mostrando os dentes, num rasgão branco que pretendia ser um sorriso, mas o rosto de Cangundinho mantinha-se inalterável. Estava humilhado. A presença do amigo restituía-lhe a consciência da sua força, a sua arrogância peculiar, mas testemunhava também, pensou com fúria, a agitação que lhe transparecia no rosto, as reminiscências comuns daquele pânico. Ele, o Zeca, sabia que fora sob pressão do mesmo medo que estava assim decomposto, porque também se assustara com os vultos que pareciam almas e com os ruídos que imitavam vozes. Não podia dissimular. E continuava ali em frente a sorrir-lhe cúmplice, compartilhando o seu medo, lembrando a impotência dos seus músculos.

Arnaldo Santos in Kinaxixe e Outras Prosas.

- Mostrar? Um mestiço mostrar o medo? Já viste o que daria? Tenho procurado sempre dominar-me, vencer-me... compreendes? É como se eu fosse dois: um que tem medo, sempre medo, e um outro que se oferece sempre para as missões arriscadas, que apresenta constantemente uma vontade de ferro... Há um que tem vontade de chorar, de ficar no caminho, porque o joelho dói, e outro que diz que não é nada, que pode continuar. Porque há os outros! Sei que, sozinho, sou um covarde, seria incapaz de ter comportamento de homem. Mas quando os outros estão lá, a controlar-me, a espiar-me as reações, e ver se dou um passo em falso para então mostrarem todo o seu racismo, a segunda pessoa que há em mim predomina e leva-me a dizer o que não quero, a ser audaz, mesmo demasiado, porque não posso recuar... É duro!

Pepetela in Mayombe.

MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quarta-feira, Maio 19, 2004
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wDivagações e citações - Segunda-feira, Maio 17, 2004



Os donos do Mundo

Recebi a resposta do meu protesto contra as torturas citadas aqui mesmo em Agreste no dia 12/05/2004.
Foi uma resposta automática, é claro.
O governo dos EUA age como se tivesse o direito de controlar todos os cidadãos do Mundo.
O caso que mais chamou a atenção foi, já na atual administração, a prisão de um executivo canadense.
Ao assumir a direção da filial da empresa canadense nos EUA, o executivo foi preso.
A acusação?
Negociara com Cuba, desrespeitando a Lei Torricelli.
Ou seja, um cidadão de outro país, dirigente de empresa de outro país, cometeu o crime de comercializar livremente com o governo de Cuba.

Entrei no endereço indicado na resposta automática e vi que apenas os cidadãos estadunidenses podem se manifestar.
Todos nós estamos sujeitos às leis deles, mas só eles têm os direitos assegurados.

Thank you for e-mailing President Bush. Your ideas and comments are very
important to him.

Because of the large volume of e-mail received, the President cannot
personally respond to each message. However, the White House staff
considers and reports citizen ideas and concerns.

In addition to President@WhiteHouse.gov, we have developed White House Web
Mail, an automated e-mail response system. Please access
http://www.whitehouse.gov/webmail to submit comments on a specific issue.

Additionally, we welcome you to visit our website for the most up-to-date
information on current events and topics of interest to you.



Tentações

Creio que só há duas formas eficazes de se lidar com as tentações: ceder a elas ou evitá-las.
Algumas pessoas me convidaram para participar do Orkut.
Pelo que soube, de tão bom que é, deve viciar.
Atualmente, para fazer as coisas que preciso, meu dia deveria ter trinta e seis horas, para fazer as que gosto, mais quarenta e oito horas.
Resolvi evitar, mas fica o agradecimento a todos que me convidaram.

Roubando blogue alheio

O texto abaixo, eu o roubei de Garbage Man. Ele não sabe de quem roubou. Quando roubei, não estava de porre nem de ressaca. Ele, eu não sei. :-)


Na noite passada, fui convidado para uma reunião com a galera e prometi ao meu pai que estaria de volta cedo. Mas as horas passaram rápido, o assunto rendendo, o som legal e as bebidas rolando soltas. Por volta das 3 da manhã, bêbado feito um "gambá", eu fui para casa. Mal entrei e fechei a porta, o cuco no hall disparou e "cantou" 3 vezes. Rapidamente,percebendo que meu pai poderia acordar, eu fiz "cu-co" mais 9 vezes. Fiquei realmente orgulhoso de mim mesmo por ter uma idéia tão brilhante e rápida (mesmo de porre) para evitar um possível conflito com ele. Na manhã seguinte, meu pai perguntou a que horas eu tinha chegado e eu disse a ele "meia-noite". Ele não pareceu nem um pouquinho desconfiado. Ufa!! Daquela eu tinha escapado! Então, ele disse:
- "Nós precisamos de um novo cuco".
Quando eu perguntei porque, ele respondeu:
- "Bom, esta noite nosso relógio fez "cuco" 3 vezes e então depois
disse "CARALHO!!!" Fez "cuco" mais 4 vezes, riu , cantou mais 3 vezes, riu de novo, cantou mais 2 vezes. Tropeçou no gato, chutou a mesinha da sala, arrotou forte e deu uma vomitada no tapete...


Rindo de coisa séria

Já que o assunto é roubo de blogue e bebedeira, não há como fugir da polêmica envolvendo comportamento de homem público e liberdade de expressão.
O governo fingiu que o jornalista pediu desculpas, mas o jornal publicamente afirmou que o jornalista não se desculpou nem se retratou.
De todas as declarações que vi na televisão, a mais equilibrada foi a de Maurício Azedo, novo presidente da ABI - Associação Brasileira de Imprensa.
Este assunto pode ser tratado de forma séria, como o fez o Estadão ou, como é típico de nossa cultura, podemos partir para a sátira, como em Kibeloco, no qual há imagens como esta que roubei de lá e botei aí embaixo.
Sabemos que "governo de bêbado não tem dono", em todo caso, pelo que tem feito em favor dos bancos, contra o Brasil e contra o nosso povo, cabe repetir: "Lula, governe com moderação".



MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Maio 17, 2004
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Sábado, Maio 15, 2004



Mensagem de Moacir Lopes

Recebi do amigo Moacir Lopes a mensagem abaixo.


Manoel Carlos

Já que temos encontro marcado na sua casa, faça o favor de preparar muita tapioca. Vai com cerveja mesmo. Você precisa aprender a cozinhar também feijão ou arroz com pequi dentro: dá um gosto de paraíso, minha avó fazia sempre. Quando lembro de pequi, vem água na boca e, num processo mnemônico, minha infância inteirinha invade minhas lembranças, com meninas de trança, banhos de rio e meu carneirinho Marquês, em cujo lombo realizei minhas primeiras viagens em torno das serras de Quixadá, inclusive na Pedra da Galinha Choca. Temos que ir um dia à Feira dos Nordestinos, em São Cristóvão para uma buchada com tapioca, ou sem tapioca, ou tapioca sem buchada, e folhetos de cordel. Lendo alguns comentários de agradáveis jovens ao seu blog, interessadas em ler A Ostra e o Vento, sugiro entrarem em contato com a editora Quartet, que está lançando e relançando meus livros, pelo e-mail: quartet@quartet.com.br Uma delas indagou se é o mesmo título do filme, sim, é a adaptação desse meu romance.
Nosso amigo Moacy Cirne está sendo modesto, é importante escritor, com muitos livros publicados, excelente poeta, e sabe tudo de cinema, e de Caicó. Só faltam você e Flora publicarem seus contos e crônicas.
Bem, agora vou pegar nas reminiscências que estou escrevendo, antes de o mundo explodir com a bestialidade de Bush, o capachismo de Blair, a cretinice de Lula e a canalhice da maioria dos nossos políticos. E está quase na hora de abrir minha primeira cerveja, que ninguém é de ferro.

Abraço, Moacir


Vê-se logo que é um mal-agradecido, o tal de Moacir Lopes; pois não é que o sujeito veio à minha casa, comeu o melhor bobó de camarão que já pensou em provar e diz que preciso aprender a fazer arroz-de-pequi?

Falando de blogue alheio

Calma! Quem pensou, pelo título, que Agreste virou Queima, Jesus! pode tirar o cavalinho da chuva.
O balaio vermelho é o assunto em pauta.

Na verdade, ele começou como Balaio Comum, produzido em fotocópia, distribuído três vezes por semana entre os alunos de Comunicação Social da UFF - Universidade Federal Fluminense.

Balaio Comum - uma foia porreta.

Talvez pelo subtítulo, chamavam-no de Balaio Porreta.
Depois de dezessete anos em papel, desde outubro do ano passado, mudou de nome e de mídia.
Quem tem o bom gosto de nele navegar logo se sente em pleno Seridó.
É claro, sem a carne-de-sol, produto regional de qualidade inquestionável.

Apenas para fazer jus ao título deste comentário, direi que o Balaio Vermelho tem um defeito.
Bem sei que atrás de um grande blogue há sempre um grande blogueiro.
Esta é a maior qualidade do Balaio, também o defeito.
O Balaio não consegue revelar a grandeza do seu autor.

O sertanejo Moacy Cirne nasceu em pleno Jardim do Seridó, conhece Caicó como poucos e carrega consigo a marca de cantador apregoada por Vital Farias.
Imanentes em Moacy o cheiro e a cor do Seridó.

Nesta quinta-feira nos encontramos.
Apenas cinco pessoas: Moacy, Moacir, Eduarda Zandron e Flora.
E o agrestino aqui, é óbvio.
Foi um encontro muito rápido, menos de três horas.
Além de muito atencioso e gentil, Moacy é um verdadeiro contador de causos.
Sem falsa modéstia, sei o que digo, habituado que fui a conviver com verdadeiros contadores de estórias.

Ao fazer um relato, o brilho nos olhos de Moacy me fez lembrar de dois saudosos contadores de estória: meu próprio pai, sucesso absoluto entre a criançada, e Gregório Bezerra.
Certa vez, Gregório descreveu o processo tradicional de fabrico de farinha de mandioca.
Rapaz! Até vontade de beber manipueira deu, pois pareceu uma coisa bonita e doce.

Além do bate-papo a lembrar as antigas tertúlias, Moacy nos deu três livros de sua autoria: Poética das Águas; Cinema, Cinema - Os filmes dos Meus Sonhos; e Continua na próxima.
O encontro foi muito agradável e certamente repetiremos a dose.
O registro fotográfico ficou comprometido.
Antes de sairmos de casa, Flora, tão logo me viu procurar disquete virgem, disse:
- Ah, Paiê! Você vai ficar tirando fotos da gente?
- Claro, filhinha! qual o problema?
- Eu não quero que você divulgue foto minha pela Internet.
- Já tem foto sua em Agreste.
- Como? Sem minha autorização?
- Sim. A foto do Mercado São José, quando você estava com oito anos.
Depois de verificar, disse que estava bem, pois não aparecia mesmo.
Portanto, nas fotos publicadas aqui, para excluir Flora, não aparece a escritora Eduarda Zandron, pois estavam sempre lado a lado.

Cimbres, Rio Branco e Arcoverde

Pesqueira nasceu das pescarias que os índios Xucuru faziam no Riacho Santana.
Havia um poço pesqueiro.
Os índios o denominavam Poço Pesqueira, daí a origem do nome.
O Capitão-Mor Manuel José de Siqueira fundou uma vila que se transformou na cidade atual.

Quem nasceu na Guanabara não tem noção da diferença entre município, distrito e cidade.
É compreensível, pois o Estado da Guanabara era constituído de apenas um município, o qual tinha apenas um distrito: Rio de Janeiro.
Até hoje os cariocas sabem que existe a Cidade do Rio de Janeiro que é igual ao Município do Rio de Janeiro, não percebem a diferença, pois eles coincidem.

Em geral, um município é formado por diversos distritos, vilas e povoados.
O distrito sede do município é a cidade, geralmente a cidade tem o nome do município, mais motivo para confusão.

Antes de existir o município de Pesqueira, havia uma vila, a Vila de Cimbres, hoje o segundo distrito de Pesqueira.
Em Cimbres nasceu o Cardeal Arcoverde, o primeiro da América.
Entre os distritos de Pesqueira havia Rio Branco, o qual se emancipou em um 11 de setembro qualquer.
Para os habitantes do município desmembrado, o Onze de Setembro é mais importante que o Sete de Setembro.
Atualmente, o antigo distrito Rio Branco tem o nome de Arcoverde.

Esta divisão explica também porque Pesqueira, cidade agrestina, é conhecida como Atenas do Sertão.
A parte que virou Arcoverde já está no Sertão.

Isto explica a pequena confusão feita por Telma, mãe de Denise em comentário aqui no Agreste.

Qualidade e preço

Não são os preços promocionais da empresa aérea que determinam um serviço de fiscalização de bagagens deficiente.
Nem o serviço deficiente que determina o preço baixo.
Aliás, creio que sempre foi a operadora do aeroporto que fiscalizou as bagagens.
Por isto creio que Sabine não está correta em seu comentário.
Sílvia, minha mulher, reside em Mato Grosso.
Há cerca de um mês ela viajou para lá, por outra empresa, com tarifa plena e teve uma mala destruída.
A empresa deu uma mala nova, mas...
Na próxima semana ela estará no Rio, sem problemas de extravio de mala é o que espero.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Sábado, Maio 15, 2004
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Quarta-feira, Maio 12, 2004



Estou em falta com este espaço virtual.
Desde o dia 5 de dezembro do ano passado, quando criei o Agreste, pensei em estruturá-lo de tal forma que a navegação fosse simples e interativa, pensei em evitar os textos longos e maçantes.
Não tenho conseguido e um exemplo é o fato de algumas das opções do menu superior continuarem desativadas; sem contar que não inclui o glossário com a definição de termos regionais utilizados.
Às vezes penso em escrever sobre determinados assuntos e... mudo de tema.
Oficina de Brennand é um tema recorrente jamais escrito. A reprodução de conversas com as mais variadas pessoas, tais como: Vasco Cabral, Benegão, Fábio Lazzari, Roberto Figueroa.
Este mês tentarei botar as coisas em dia e a casa em ordem.
É o mínimo que devo fazer para agradecer os mais de cinco mil acessos nestes cinco meses.

Salário-mínimo

Em 2000, FHC deu um cala-boca como reajuste salarial, o vergonhoso reajuste de 11,0%.
Em 2003 o reajuste, incluído na lei orçamentária de FHC, foi de 20%.
Este ano, Lula deu um reajuste de 8,3%, além de adiar em um mês a data básica.
Este reajuste significa o quê?
Que tal a imagem? Será que diz mais que qualquer discurso?

Mercadante, Palocci, Dirceu, Berzoini e outros lulistas ridicularizam o reajuste de 11% em 2000.


O mercado

Toda a política econômica do Prepone Lula tem sido pautada pelas exigências e expectativas do mercado.
Que diabos é mercado?
Quais são as leis de mercado?
Nesta semana o Governo interveio no mercado.
Proibiu uma empresa aérea de vender passagem a preço baixo.

A empresa fez uma planilha demonstrando que a taxa de ocupação em maio é muito baixa e que a venda de passagens a preços promocionais é lucrativa.
Vôos sem grandes luxos, em horários noturnos.
Para quem considerou necessário comprar um avião por 67 milhões de dólares...

Tortura ianque

Recebi do amigo Mário Assis a mensagem abaixo.



As imagens falam por si só. É inacreditável, em pleno século XXI, constatar as barbaridades cometidas pelas tropas americanas no Iraque invadido.
Acesse o sítio e confira fotos impressionantes! Algumas imagens não são recomendáveis a crianças ou pessoas muito sensíveis.
Proteste, mande um e-mail para a Casa Branca:

president@whitehouse.gov


"A tortura é crime contra a humanidade"
"The torture is crime against the humanity"

MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quarta-feira, Maio 12, 2004
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Segunda-feira, Maio 10, 2004



Já está virando mania postar duas vezes sobre o mesmo assunto, mas vamos lá!

Hoje Moacir Lopes me telefonou. Por conta da postagem anterior, Moacy Cirne acabara de telefonar para ele querendo marcar um encontro para um bate-papo. Em campo neutro, no Catete. Claro que aceitei.

Aproveitei para fazer uma consulta, pois algumas pessoas têm me perguntado qual o livro dele que eu sugiro ler.
Márcia, Leila e Denise já o fizeram.
Em geral sugiro três: Maria de cada porto, A ostra e o vento e A revolta da chibata.
Moacir disse que estava bom assim.
Eu lhe disse que gostaria de uma sugestão dele e não minha.
Ele disse que considera que a Ostra e o vento deve ser indicado para leitores mais sofisticados que gostem de literatura; que A revolta da chibata tem características históricas e políticas, o pano de fundo é o Rio do início do Século XX; e Maria de cada porto é um romance mais popular.
Assim sendo, fica a minha sugestão comentada pelo autor.

A conversa foi engraçada, pois Moacir ainda não leu uma mensagem que enviei por e-mail na qual solicitei que visitasse o Agreste para ler o que escrevi sobre ele - censura póstera?
Ele não leu porque o mouse deu defeito no sábado. Foi ao Largo do machado, comprou outro e... nada!

Eu contei a minha desdita de sábado.
Aguardava a roupa ficar lavada para pendurá-la antes de sair para compras.
Pretendia ir à feira do Bairro de Fátima, próximo a Santa Tereza, para comprar goma, pois me deu vontade de, no sábado de tarde e domingo de manhã, fazer tapioca.
Para não me deixar levar pela gula, costumo fazer tapioca apenas quando Diana, minha filha mais velha, vem ao Rio, pois ela adora.
Neste fim de semana seria uma exceção.

Gosto de preparar tapioca pequena, fina, lisa de ambos os lados e homogênea.
Também, se não ficarem assim, Flora logo reclama.
A preparação é um pequeno ritual: enquanto preparo as tapiocas, Flora fica ao lado, tagarelando, passando manteiga tão logo ficam prontas.

Enquanto aguardava a hora de sair de casa, dei uma passada na internet.
Tentei passar, pois um clarão mudou a minha manhã.
Alguém pensou em um milagre?
Bem que pareceu algo miraculoso.
Caso eu fosse um místico, poderia pensar que uma entidade divina ou extraterrestre tentava entrar em contato comigo.
Qual o quê!
Simplesmente o monitor queimou.

Oportunidade excelente para Flora exercitar o seu sarcasmo.
- Pai, já pensou alguém ter uma Silicon Graphics Origin 3900, com terabytes de HD, internet via satélite e ficar um feriadão sem computador por falta de um teclado?
Não era um teclado, mas um monitor.
Resultado: passei a manhã inteira na cidade e retornei com um monitor novo, mas a tapioca...


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Maio 10, 2004
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Sábado, Maio 08, 2004



Moacir Lopes

- Manoel Carlos?
Reconheci imediatamente a voz de Moacir Lopes ao telefone.
- Diga lá, Moacir! O que você manda?
- Nada não... quais os cinco brasileiros mais importantes da História?
- Depende...
- Nada disto! Lá vem você com esta coisa de depende.
- Moacir, se estivéssemos falando de grandes intelectuais, eu incluiria Tobias Barreto e outros. Se o foco fosse educação, citaria Anísio Teixeira, Paulo Freire, Lauro de Oliveira Lima, Darcy Ribeiro, Bayard Boiateux...
- O critério é de quem é importante para o povo brasileiro.
- Mais uma vez depende do público-alvo; se estiver falando para mulheres e sobre feminismo, incluirei Branca Dias, Anita Garibaldi, Escrava Anastácia...
- Escrava Anastácia não existiu, pelo menos não há provas...
- Viu só? Você considera que ela não existiu, mas para grandes parcelas do nosso povo ela é uma grande heroína, havendo quem a considere uma mártir e até uma santa.
- Tá certo! Mas eu quero saber do ponto de vista social, entre os que lutaram pelos direitos do nosso povo.
- Só entre comunistas posso citar mais de cinco: Prestes, Gregório Bezerra, Cristiano Cordeiro, Davi Capistrano, Agliberto Azevedo, Roberto Morena...
- Prestes eu já inclui na minha lista...
- Há uma lista imensa: Zumbi, Henrique Dias, Fernandes Vieira, Potí, Frei Caneca, Padre Miguelino, Padre Roma, Leão Coroado...

Moacir às vezes telefona de repente e iniciamos uma longa e fraterna discussão. Melhor ao vivo, pois aos setenta e sete anos, ele bebe como gente grande e, regada a cerveja, a conversa flui melhor.

- Manoel Carlos?
- Diga lá, Moacir!
- Você conhece Moacy Cirne?
- Conheci pela Internet, por quê?
- Eu o encontrei e ele me perguntou se eu conhecia você.
- É ele edita o balaio vermelho, inclusive acaba de publicar lá um texto meu, você leu, Último Dia.
- Eu lembro.
- O que Moacy disse sobre mim?
- Isto mesmo. Disse que conhece você pela Internet.
- Ele mora no Rio? Pensei que fosse em Caicó.
- Não, ele é daquelas bandas, mas mora aqui. Rapaz! Precisamos ver este negócio de Internet.
- Moacir eu já disse, basta irmos até minha casa, em duas horas criamos um blogue para você.
- Um blogue?
- Sim, lembra que quando fui com Luana à sua casa eu disse que queria publicar uma entrevista com você na Internet? E expliquei a estrutura?
- Sim, mas isto foi no início do ano, eu já vi o seu e o de Flora também. Vou dizer uma coisa, na linguagem dela e para o público adolescente, Flora é uma grande cronista.

"Eis aí o primeiro romance de um marinheiro (Maria de cada porto), o inicial na bibliografia brasileira, romance autêntico, puro, bruto e lindo, vivido por um marinheiro entre marinheiros." - Luís da Câmara Cascudo
"Bem diferente é a literatura de Moacir C. Lopes; não se trata de imitar nenhum autor novo europeu, trata-se de alguém com uma experiência vital a transmitir, seus personagens não vivem problemas artificiais e quase sempre tolos, são de carne e osso, nós os conhecemos e neles reconhecemos gente e povo." - Jorge Amado
"Moacir C. Lopes tem muita coisa a contar. Não como os narradores de histórias do mar, mas como um homem que muito viveu e amou o mar." - Eneida de Morais
"Entre os ficcionistas brasileiros, novos ou velhos, Moacir C. Lopes ocupa hoje um lugar de evidente primeiro plano. (...) A Ostra e o vento é o melhor, o mais maduro, o mais denso e forte romance de Moacir C. Lopes. A história de Marcela vai comover os leitores. Quanto a mim, outra vez senti a poderosa atração da humanidade desse romancista do mar, dos ventos soltos, dos sentimentos em tempestade. Mais uma vez senti a alegria do encontro com a literatura de Moacir C. Lopes." - Jorge Amado
"Quando as pessoas me perguntam o que me fez rodar o filme A Ostra e o vento, o belo e misterioso romance de Moacir C. Lopes, o que vem à minha cabeça é: cinema, a possibilidade de criar um universo que é onírico e real ao mesmo tempo devido à autenticidade da imagem. Que desafio contar a história de uma menina que tem o vento como amante através de um filme! É o momento em que o artista vê sua própria alma revelar-se. Ainda mais com um texto desta qualidade." - Walter Lima Jr.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Sábado, Maio 08, 2004
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wDivagações e citações - Quinta-feira, Maio 06, 2004



Mia Couto

Muito do que sou, devo à África.
Não o digo como simples expressão, ou referência a alguns de meus ancestrais.
Por pouco mais de dois anos vivi lá.
Não disse morei, mas vivi.
A experiência de viver em África marca, até hoje, o meu modo de ser.
Aprendi com africanos novas formas de pensar, adquiri novos paradigmas.

Já antes de lá viver, li um pouco do que Agostinho Neto, Amílcar Cabral e outros africanos escreveram.
Na condição de brasileiro sempre considerei ter uma ligação histórica com a África.
Desde que lá vivi, passei a considerar-me em permanente dívida.

Dívida impagável, não mensurável que é.
Entretanto, sempre que possível, resgato algo que a África me deu, como forma de gratidão.

Por isto, aos poucos, neste espaço, compartilharei com os amigos alguns assuntos africanos.

Hoje, apresentarei uma carta enviada por um moçambicano, o amigo Pinto Lobo, contendo uma estória, das primeiras publicadas, do seu amigo Mia Couto.
Não faltarão oportunidades para revelar o biólogo, jornalista e pensador africano Mia Couto.


Caro Manoel,
Esta é uma estória antiga do Mia Couto, escrita na altura das nacionalizações dos prédios, não sei se a conheces.
Um abraço
ZP


Um pilão no nono andar

Dá licensss.

A voz empurrava o espaço dentro, criava assunto.

O que se passa, ó vizinho?, perguntou o do nono.

Se passa o problema de morar. Quando se mora, tudo fica perto.

Um prédio é uma casa só, inteira de única. Todos no prédio, são noivos do mesmo espaço. Matrimoniados pelo mesmo habitar. Acredite, a vizinhança é um casamento. Veja lá: os quartos adormecem encostados uns aos outros. Os filhos dos vizinhos gritamo-lhes ralhando com os nossos. Nos cheiros provamos a comida alheia antes de ela ser servida lá, na respectiva casa. Somos os dois lados da parede, um e outro, não acha?

E porquê esta toda introdução, meu amigo?

É que é por causa disso, por causa dessa introdução, que eu estou aqui, vizinho.

Então veio a minha casa por causa de uma introdução?

Calma, eu explico: esse seu pilão, no nono andar, barulha até lá no chão. É um barulho: até doenta-nos os ouvidos. Tunc, tunc, tunc... É de mais, parece que estão a pilar a cabeça da gente. A nossa paciência vizinho, está nos últimos grãos. Desculpa-me, mas eu tenho que lhe fazer esta autocrítica.

O homem do nono andar aceitou a queixa, razão dos incómodos sonoros. E explicou, apontando a menina: a pilosa é a minha sobrinha. Mas tem que ser, desculpe. A farinha toda moemos aqui em casa. Não pilamos por gosto.

Mas o queixoso não desarma e prossegue os seus argumentos. O vizinho, diz ele, tem o chão lá no pátio que é tanto e funciona tão bem, sem avaria. Aí no chão é o lugar próprio de pilagens. A sua sobrinha mais o pilão devem descer.

Sim, o outro, mas o vizinho inferior tem que pensar nas inconveniências sucedíveis. Outro dia, veja lá, o elevador avariou-se. A sobrinha, coitada, desconseguiu de carregar o pilão. Não podia subir das escadas, ou acha? Claro que não, o pilão é um peso vertical. E ela deixou lá o pilão, deixou-lhe no tal em baixo que você está a propor. Que aconteceu ainda por cima do resultado? Não sabe, nem chegou a ouvir? Pois, vizinho, roubaram o pilão. Roubaram, todo de uma vez. E hoje o preço do pilão está mais que caríssimo. É um preço, vizinho.

Está certo, compreendeu o queixoso. Mas diga-me uma coisa: agora o elevador já funciona mais outra vez, já repararam. O vizinho ou a sobrinha podem viajar de pilão, do rés ao nono.
Com certeza, o outro respondeu, mas se estando no piso terrestre o levador se lesiona maistravez? Ou aqui há horário de avarias? Isso só nos países mais avançados, meu amigo. E depois, lá se desaparece outro pilão. Não, isso não, se faça-me um favor. Lhe encomendo uma pergunta, com sua licença: o guarda-chuva nos guarda a nós ou à chuva?

O reclamante não entendeu a questão. Respondeu, expondo uma ideia: e se você guardasse o pilão na minha garagem? Lá tenho a minha carrinha nova mas ela não ocupa tudo, fica um espaçozinho, dá muito bem para o pilão.

E assim acordaram os dois, o vizinho e o outro. A sobrinha ficou com uma cópia da chave do cadeado e lá pilava no pátio, tunc, tunc, tunc, mas agora só a terra sofria e ela, a terra, nem queixava. A terra tem tanta paciência com os homens, nem uma mãe! Mas eis um dia: volta o reclamante, cara de azedos. O outro, o do nono, sem compreender: o que se passa, meu amigo? É o barulho? Mas já terminou, o pilão trabalha lá em baixo, conforme do nosso acordo autodiplomático.

O pilão não é, vizinho, mas agora tenho a minha carrinha nova toda riscada, essa sua sobrinha não tem nenhum cuidado, está tudo raspado, se fossa a um bate-chapa não vinha assim tão raspadinha. Se apanho essa sua sobrinha risco-lhe o focinho.

Calma, vizinho. Calma que isso se resolve, há sempre um meio. Somos parentes bastante geográficos, não somos? Vamos analisar a situação: o pilão, por acaso ninguém roubou ultimamente, estou bastante satisfeito com o comportamento desse pilão. Agora, sobre da sua carrinha, vamos lá ver. Não será o senhor, caro vizinho, pode deixar a carrinha cá fora e a garagem fica só exclusivamente com serviço de guardar o pilão. Que tal, vizinho? Não me responde?

MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quinta-feira, Maio 06, 2004
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wDivagações e citações - Terça-feira, Maio 04, 2004



Esclarecimentos

Talvez por falta de clareza minha, o texto da postagem anterior, ao que parece, suscitou algumas dúvidas.
Prefiro esclarecê-las.
Não desejava, não esperava e nem achava que Elba deveria ter citado o meu nome.

Sem uma análise profunda, admiro o fato de Sílvio Santos sempre ter assumido que foi um simples vendedor ambulante.
Daí a simular um sofrimento além do real...

O nosso Prepone Lula é um exemplo.
Certa vez eu o vi dizer que era um sertanejo.
No contexto, sertanejo significava sofredor.
Sua Excelência nasceu em Garanhuns, conhecida como Suíça Pernambucana por sua excelência climática.
Jamais foi sertanejo e se não sabe a diferença é ignorância sobre a terra natal; se sabe, é perfídia.

Elba Ramalho tem mérito; com garra e determinação, enfrentou dificuldades e se consagrou.
Sempre foi uma presença marcante em palco.
Ela e Maria Bethânia, em cena, têm uma perfeita noção de ocupação de espaço.

Quanto ao programa de TV sobre a vida dela e a citação que fiz na postagem anterior.
Poderia ter dito simplesmente a verdade.
Por exemplo.
"Quando decidi ficar no Rio, não tinha parentes ou amigos, nem dinheiro para alugar um apartamento ou fazer as compras necessárias. Não tinha perspectivas de ganhar dinheiro regularmente. Recebi uma indenização e era todo o meu capital. Por sorte, Marcelo, do Quinteto, falou com um amigo que me abrigou. Eu precisava freqüentar bares para encontrar as pessoas do meio artístico e quanto mais distante ficava a minha apresentação com o Quinteto, mais difícil ficava arrumar trabalho. Carlos Vereza, que me viu em ação em A Feira, foi quem me encaminhou a Luiz Mendonça..."
Simples e indolor.

Não tenho raiva dela.
Acredito até que ela sente alguma gratidão.
Antes de ver este programa, uma vez, Toinho do Quinteto Violado telefonou para mim e disse que Elba esteve no Recife e pediu que ele desse o telefone dela para mim e que pedisse para eu telefonar.
Não telefonei.
Sou muito chato e acho que, se ela realmente queria falar comigo, bastaria pegar o número do meu telefone e ligar.
Depois de ver o programa, não apenas perdi o interesse em telefonar, mas até em atender um telefonema dela.

Quando a conheci, éramos pessoas diferentes do que somos hoje, ambos mudamos muito, talvez nem conseguíssemos continuar amigos, não sei.
Eu tenho uma filha chamada Luana e quando Elba teve um filho o nome dado é muito parecido: Luã; o que demonstra que tínhamos até gostos parecidos.

Eu desejo que ela continue a sua brilhante carreira artística e que seja muito feliz.
Não sinto qualquer rancor, ou coisa do gênero.

Luana

Por falar em Luana, uma vez eu disse a Beth Carvalho que ela e uma novela da TV Globo vulgarizaram o nome de minha filha.
Depois de conferir que a filha dela é quase um ano mais nova que a minha, ela concordou.
Vulgarizou apenas o nome, pois Luana é adorável.
Não caberia num blogue o monte de elogios que eu teria a fazer.
Luana viveu em Moçambique.
Desde pequena buscou a minha companhia, inclusive em programas que crianças não gostam de participar; quando às vezes eu acompanhava Prestes a algum lugar ela sempre se propunha a ir também.
Ao completar dezoito anos, optou por morar comigo.
Atualmente vive na Europa onde trabalha como advogada, mas veio passar o aniversário aqui.
Durante a recente estada, numa sexta-feira, começamos a conversar cerca de dez horas da noite, quando resolvemos dormir já eram seis horas da manhã.
Se não fosse o sol, não teríamos percebido que o tempo havia passado...

Marcelo Melo

Marcelo não é Mário.
É mais um pernambucano da Paraíba, como José Lins, Ariano Suassuna...
Cursava o mestrado em Agronomia na Bélgica e tocava com alguns cabo-verdianos quando conheceu Geraldo Vandré, então exilado.
Participou do disco Das Terras do Benvirá, último gravado pelo compositor paraibano.
Além dos elogios ao Vandré, a viola tocada por Marcelo foi o objeto de inúmeros elogios.
Em seu retorno ao Recife, Marcelo criou o Quinteto Violado junto com Toinho, Luciano, Fernando e Generino.
Ainda não tinha este nome, o primeiro nome, provisório, foi Grupo Acauã.
Numa ida a Nova Jerusalém, durante a Semana Santa, ao verem os integrantes do Quinteto chegando com violões e violas, umas crianças gritaram: - lá vêm os violados!
Da boca do povo surgiu o nome: Quinteto Violado, já com Sando na flauta e Generino fazendo parte, também por pouco tempo, da Banda de Pau e Corda.

Das Terras do Benvirá

Durante a gravação de Das Terras do Benvirá, os produtores franceses viram, já em estúdio, que faltava um tempo para completar o disco de acordo com os padrões de qualidade exigidos.
Vandré simplesmente improvisou na hora da gravação e saiu uma obra-prima naquela música, cujo nome esqueci, que tem cerca de sete minutos.
Depois deste disco, Vandré compôs apenas em espanhol, recusando-se a usar o português.
Apenas o Quinteto Violado tem sua autorização para gravar as tais músicas, como a República Brasileira que o Quinteto incluiu no CD Quinteto Canta Vandré.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Terça-feira, Maio 04, 2004
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wDivagações e citações - Segunda-feira, Maio 03, 2004



Ingratidão

Ninguém faz um favor esperando retribuição ou gratidão.
Favor não exige reciprocidade.

Há trinta anos, o Quinteto Violado era muito famoso e se apresentava no Rio de Janeiro.
Havia uma pressão imensa dos denominados produtores culturais para que os componentes do grupo fixassem residência no Rio ou São Paulo.
A recusa criou problemas para o grupo que teve seu acesso à mídia definitivamente dificultado quando o Quinteto Violado criou uma gravadora para gravar trabalhos de artistas nordestinos sem acesso à indústria fonográfica.

O espetáculo A Feira contou com duas participações especiais: Ray Miranda e Elba Ramalho.
Ray era um cantor da boate Ferro Velho, entre Boa Viagem e Piedade.
Elba, desconhecida atriz amadora, oriunda de Campina Grande.
O espetáculo contava com músicas de, entre outros, Luiz Gonzaga, Geraldo Vandré, Elomar...
A Feira, um dos melhores espetáculos brasileiros da temporada, foi atacada pela crítica especializada; toda a crítica foi centrada na atuação dos participantes especiais.
Casa lotada, dois espetáculos diários, mas a crítica batendo forte.
Dois meses de apresentação no Teatro Casa Grande, depois a continuação da temporada no Teatro SESC de Copacabana.
Às segundas-feiras, um espetáculo especial, Som da Terra, com convidados do porte de Marinês, Dominguinhos, Sérgio Ricardo e outros, cada espetáculo com duas sessões.

Ao fim da temporada carioca, após muita conversa entre os participantes do espetáculo, a decisão: sairiam Ray e Elba e entraria Dominguinhos.
O Quinteto ofereceu a Ray e Elba a possibilidade de se incorporarem à produção do espetáculo, por todo o Brasil, recebendo o mesmo salário que estavam recebendo como integrantes do próprio elenco.
Ray aceitou por um mês e retornou ao Recife.
Elba recusou.
Recebeu o seu dinheiro, uma espécie de indenização, e decidiu ficar no Rio para tentar a carreira artística.

Sem parentes ou amigos na cidade, Elba não teria para onde ir.
Marcelo Melo, conversou comigo e pediu que eu a hospedasse.
Nenhum problema; ela ficou quase um ano em minha casa.
Saiu para viajar com um grupo na peça Viva o Cordão Encarnado, de Luiz Mendonça.
Retornou ao Rio participando de A Chegada de Lampião no Inferno.

Vi a peça no teatro João Caetano.
Ao fim da apresentação saímos, bebemos um chope... continuávamos bons amigos.
Quando ela lançou, em Niterói, o seu primeiro disco, Asa de Prata, o Quinteto Violado estava no Rio; sendo uma segunda-feira, fomos todos, eu e o pessoal do Quinteto.

Perdemo-nos de vista até que nos encontramos casualmente na Cinelândia.
Na ocasião, Elba já começava a ser famosa e participava da Ópera do Malandro, de Chico Buarque.
Era fim de ano, com toda aquela movimentação do Amarelinho, tradicional reduto boêmio carioca.
Ela foi mais que efusiva.
Ao me ver, gritou meu nome, correu, pendurou-se no meu pescoço, abraçou, agarrou, beijou, etc.
Neste dia ela me disse:
- Eu devo muito a você, muito mais do que você imagina.
Não entendi exatamente o que ela queria dizer, nem perguntei.

Um dia, um médico amigo me contou que encontrara Elba no Hospital Miguel Couto.
Naquela época, quando enfermeiros suspeitavam que algum paciente era vítima de overdose de drogas ou de aborto provocado, o paciente era praticamente abandonado, mais um, entre mendigos, a morrer pela carência de leito.
Encontrando-a largada numa maca em um corredor, o médico a reconheceu e perguntou?
- Esqueço o seu nome, mas eu conheço você da casa de Manoel Carlos, não é?
Infelizmente foi necessário que um médico a conhecesse para que ela fosse finalmente atendida e salva; não lembro bem, mas parece que era algo como vesícula, não sei...
Apenas naquele momento entendi a que se referira Elba no encontro no Amarelinho.

Fui morar na África, retornei ao Brasil e não voltamos a nos encontrar.
Outro dia vi um programa na televisão sobre a vida de Elba Ramalho.
Não lembro se no GNT ou no Multishow.
Ela contou como chegou ao Rio, falou do espetáculo do Quinteto Violado e do seu desligamento do elenco.
Disse que, ao se desligar do grupo, ficou com uma mala, sem dinheiro, no meio da rua, em pleno Rio de Janeiro.

Jamais esperei retribuição ou gratidão por um favor prestado, mas fiquei chocado ao ver alguém dizer que ser carinhosamente recebido em minha casa é o mesmo que ficar embaixo de um viaduto.

Gravação pirata

Já que é para reclamar, lembrei que gravei (direto da mesa de som) quase todos os espetáculos e produzi algumas fitas piratas, para consumo próprio.
Um dia, Marcelo Melo me pediu uma destas fitas para enviar a um grupo que contrataria o Quinteto para apresentações na Europa.
Não devolveu a bendita fita.
Afinal, nem se pode mais piratear em paz?
Ô Quinteto Violado! Quero minha fita pirata de volta!


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Maio 03, 2004
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wDivagações e citações - Sábado, Maio 01, 2004



Diferenças

Paulo Freire conversava com um amigo chileno andando pelas ruas de Santiago.
Como é habitual entre brasileiros, Paulo Freire botou a mão no ombro do amigo.
Entretanto o amigo ficou pouco à-vontade e Paulo Freire perguntou o que havia.
- Sabe o que é, Paulo? Aqui no Chile é muito estranho um homem botar a mão no ombro do outro.
Paulo Freire nada disse, mas pensou: "há alguma coisa esquisita com a cultura deste povo".
Em sua primeira visita à África, Paulo Freire andava com um amigo africano que pegou a sua mão e continuou a conversar e caminhar de mãos dadas.
Constrangido, Paulo Freire pensou: "há alguma coisa esquisita com a cultura do meu povo".

Saraiva Guerreiro, Ministro de Relações Exteriores do Brasil, ao visitar Moçambique, participou de uma solenidade pública, na qual Samora Machel ficou de mão dada com o próprio Saraiva Guerreiro.
Aproveitando um gesto de Samora, ao ficar com a mão livre, Saraiva Guerreiro rapidamente botou a mão no bolso.

Em África, sempre que algum amigo pegava a minha mão deixando-me constrangido, eu usava a tática de, na primeira oportunidade, botar a mão em seu ombro.
Ele ficava igualmente constrangido e lembrava do meu constrangimento ao andar de mãos dadas com outro homem.

O atual Presidente de Moçambique, Chissano, era Ministro dos Negócios Estrangeiros de Moçambique e veio ao Rio de Janeiro.
Entre os seus acompanhantes estava o seu assessor direto, Sengo.
Havia apenas um dia de folga para a delegação que iria, no dia seguinte, a Brasília.
Aproveitamos e andamos um pouco pelo Rio, conversamos, botamos os assuntos em dia.
Ao fim do dia, acompanhei Sengo ao Hotel Ouro Verde, na Avenida Atlântica, em Copacabana no qual a delegação se hospedou.
Após bebermos um pouco no bar do hotel, Sengo me acompanhou até a calçada e nos despedimos.
Ele pegou a minha mão e começou a dizer:
- Oiça lá, Pinheiro! Que saudades de Maputo, dos momentos maningue agradáveis que lá passamos...
O que imaginaram as pessoas que andavam no calçadão, ao verem a cena e ouvirem estas palavras?


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Sábado, Maio 01, 2004
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Praia do Porto - Costa Dourada
Litoral Sul de Pernambuco
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Praia de Calhetas
Cabo de Santo Agostinho
Ponto extremo de Pernambuco
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Chapada dos Guimarães
Mato Grosso
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Serra dos Órgãos
Estado do Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Campos do Jordão
São Paulo
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Provetá - Ilha Grande
Estado do Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Candeias
Jaboatão dos Guararapes
Pernambuco
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Mercado São José - Recife
Pernambuco
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Piedade
Jaboatão dos Guararapes
Pernambuco
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Pouso Alegre
Minas Gerais
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Pão de Açúcar
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Cristo Redentor
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Nascente - Pão de Açúcar
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Poente - Floresta da Tijuca
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Maracanã
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Niterói
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa
Quinta da Boa Vista
Rio de Janeiro
Foto: Manoel Carlos Pinheiro
Vista de Casa <