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Pernambucano, residente no Rio de Janeiro. Analista de Sistemas. Casado, com quatro filhos.
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“Só é cantador quem traz no peito o cheiro e a cor de sua terra, a marca de sangue de seus mortos e a certeza de luta de seus vivos”
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wDivagações e citações - Quinta-feira, Junho 24, 2004



A primeira dança

Medo.
Tentou não pensar, impossível.
Olhou os pés descalços.
Entreteve-se a lembrar do encanto que estes pés provocavam.
Mesmo a bola sendo uma bexiga de boi, os pés a dominavam completamente.
Medo.
A primeira vez que entrou em campo sentiu medo.
O medo não o impediu de chamar a si a responsabilidade do jogo e decidi-lo.
As pernas finas, cambitos.
Ágeis a subirem em árvores, em driblarem os adversários, a pularem o frevo; firmes a sustentarem o corpo de criança.
A fogueira reacendeu-lhe o medo.
Desviou o olhar.
De nada adiantou.
Tudo em volta lembrava o medo.
Até o mato, o imbuzeiro.
O medo da primeira vez que se embrenhou no mato.
Medo que não o impediu de caçar o bengo, como os antigos chamam o preá.
O mato passou a ser seu território, seu domínio, seu nsi, como dizem os antigos.
O medo ao subir na primeira árvore.
Agora, nem mesmo precisa de corda nos pés para subir em coqueiro.

Como se um raio lhe caísse sobre a cabeça, ele entendeu!
Agora ele entende.
Quando os antigos diziam que ele tinha medo no bõdãso (sangue), ele não entendia.
Pois sempre o trataram como um ambeko (menino) capaz de arago (lutar), um futuro guerreiro xucuru.
Agora ele entende que não era de marau (ficar com raiva), mas brigava se necessário.
O medo jamais o impediu.
Agora ele entende.
O medo e sua superação, esta a sua vida.

Ele entende e se dirige para a fogueira.
Pés descalços? não importa.
Pernas finas? cambitos? não importa.
Determinado, caminha lentamente, cabeça erguida, em direção à fogueira.

Agora ele entende o que é estar encantado.
Possuído pelos ancestrais que o conduzem à fogueira.
Os abanos tiram a cinza e deixam apenas as brasas vermelhas.
O encarnado das brasas o chama; encarnado, a sua cor predileta.

E o batuque.
Agora entende aquele frevo que diz:
"entra na cabeça, toma conta do corpo e acaba nos pés".
O batuque dos presentes parece ser o toque dos ausentes.
O batuque toma conta do corpo.

Rodopia sobre as brasas.
O seu ritual de passagem.
Segura as lágrimas de alegria e emoção.
Um guerreiro xucuru não pode chorar.
Não na noite do seu toré.
A sua primeira dança.
Aos quinze anos, a sua verdadeira noite de São João.
Agora já é um velho caboclo.
Velho caboclo! Velho caboclo! Velho caboclo!
Pois é assim que o chamam as vozes dos ancestrais:
- taiepu taispu! taiepu taispu! taiepu taispu!


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quinta-feira, Junho 24, 2004
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wDivagações e citações - Terça-feira, Junho 22, 2004



Neruda


Novas ilhas,
novos rios,
novos vulcões
fazem do nosso continente uma nova geografia
outras forças juvenis
uma sociedade mais pura,
novos protagonistas da história que está nascendo
e que temos o dever de construir
quem pode estar contra a nova vida?
Celebramos a chegada de Brizola ao cenário da América
como uma deslumbrante aparição de nossas esperanças
Estamos cansados de rotina, de miséria e ignorância
de injustiça econômica
Abramos os caminhos àquele que encarna hoje
a possível construção do futuro

Pablo Neruda


Agreste não se presta a discussões político-partidárias.
Entretanto, é impossível deixar de registrar o meu profundo pesar pelo falecimento de Leonel Brizola.
Na foto ao lado, o último jantar em que estive com ele.

Em 1984, a direção do Conselho Mundial da Paz visitou o Brasil.
O então Governador do Rio de Janeiro convidou a delegação para um almoço.
Antes do almoço, acompanhei a delegação ao Palácio Guanabara, apresentei um a um ao Governador.
Entre os membros da direção, havia um angolano acompanhado de dois assessores, um dos assessores fora Ministro da Saúde e o outro era a pessoa de menor importância hierárquica de toda a delegação e último a entrar no salão.
Quando fui apresentá-lo ao Governador, Brizola antecipou-se e o abraçou efusivamente.
Convidou-o a ficar alguns meses no Brasil, em casa do próprio Governador.
O angolano recusou e Brizola insistiu que ele ficasse três, depois dois, ou mesmo um mês, uma semana que fosse.

Durante a reunião, o Presidente do Conselho, Roman Shandra, perguntou ao Governador o que significava o projeto dos CIEP - Centro Integrado de Educação Pública.
Não havia jornalistas presentes, tratava-se de uma reunião fechada.
Isto significa: não havia platéia.
Brizola respirou fundo e disse:
- Presidente, eu poderia tecer uma série de comentários, apresentar muitos motivos, desde a geração de empregos até a recuperção da pecuária leiteira ou da construção civil (foram construídos mais de quinhentos CIEP, cada um com capacidade para mil alunos), entretanto, para mim há um motivo que se sobrepõe aos demais: com os CIEP, estas crianças terão oportunidade de fazer aquilo que nós, por covardia ou incompetência não fizemos: mudar o Brasil e o Mundo.

Após o almoço, perguntei ao angolano porque o Governador insistira tanto no convite.
A resposta do angolano:
- Quando o Governador, durante a luta armada em Angola, visitou as zonas libertadas, eu era o seu guia.
Diversas vezes ouvi Brizola dizer que os salões não o encantavam; ninguém via Brizola em colunas sociais, o exercício do poder era para execução de uma política, sobretudo a educação popular, a saúde pública...

Jamais alguém conseguiu apontar uma irregularidade no uso de dinheiro público, algum favorecimento pessoal, ou mesmo uma incoerência política.

Catorze anos depois da morte de Prestes, o Brasil volta a perder um dos maiores líderes de sua História.
Serenadas as paixões, Brizola talvez tenha o reconhecimento que injustamente sempre lhe foi negado.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Terça-feira, Junho 22, 2004
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wDivagações e citações - Segunda-feira, Junho 21, 2004



Encontro de blogueiros

Neste fim de semana, Eu e Flora conversávamos sobre as amizades estabelecidas através da internet.
No ano passado, ela em novembro e eu em dezembro, iniciamos nossos respectivos blogues.
A partir de Agreste e Bloggagens, criamos elos, alguns até consistentes.

Em função da conversa, resolvemos consultar os amigos sobre a realização de um encontro.
Como sugestão inicial, o encontro poderia ser no dia 10 de julho, um sábado, à tarde.
Também como sugestão inicial, apresentamos dois locais.
O Clube do Círculo Militar, na Praia Vermelha.
O Catete Grill, na Rua do Catete.

O Círculo Militar é um dos recantos do Rio.
Ambiente agradável, ao lado do Pão-de-Açúcar, à beira-mar, verdadeiro cartão-postal.
Um dos melhores chopes do Rio - para mim o melhor ainda é o do Alemão da Lapa.
Uma das melhores pizzas da cidade.
Não é caro.

O Catete Grill, caso compareçam mais de vinte pessoas, permitiria o nosso acesso à parte superior e as pessoas poderiam transitar com mais facilidade não ficando aquela coisa desagradável de uma mesa muito longa sem propiciar a conversa entre todos os participantes.
Sendo comida a peso, há um aspecto prático.
É um ambiente fechado, com ar-condicionado.
Com chuva ou sol, a reunião poderia ser realizada.

Em resumo: na Praia Vermelha, mais agradável, no Catete, mais prático.

Quem quiser participar, por favor, manifeste-se, inclusive indicando a preferência por um dos locais ou a sugestão de outro.

Entre não blogueiros, gostaríamos de convidar Moacir Lopes, Eduarda Zandron, Nei Leandro e Antônio Jardim; isto ajudaria o querido Moacy Cirne a superar a sua aversão a multidões.


Dicas culturais


Quem gosta de arte e de cultura afro-brasileira vai apreciar o trabalho Orixás, de Hugo Negrini. As peças esculpidas e moldadas em gesso e resina custam 100 reais em média e são pintadas uma por uma pelo próprio Hugo.
Fonte:
Água forte

Música de graça no Parque das Ruínas em clima caipira

Suzana Velasco - O Globo

RIO - O Projeto Vertentes Cariocas, que leva música de graça, todos os domingos, ao Parque das Ruínas, entra no clima das festas juninas e lança este mês a série "Viola de arame", que terá desde jongo e música caipira até peças de Villa Lobos escritas para cordas dedilhadas. Os músicos serão sempre acompanhados do violonista Marcelo de Castro Lopes.Neste domingo, às 18h, será a vez do violeiro e violonista Marcus Ferrer, estudioso da viola caipira, apresentar suas canções. Yassir Chediak será a atração do dia 13 e Leo Rugero, do dia 20. Fechando a série junina, dia 27, será a vez de Messias

MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Junho 21, 2004
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wDivagações e citações - Sexta-feira, Junho 18, 2004



Recebi do amigo Werneck, de autoria desconhecida.


Ditos populares na era da informática

A pressa é inimiga da conexão!
Amigos, amigos, senhas à parte.
Antes só do que em chats aborrecidos!
Arquivo dado não se olha o formato!
Diga-me qual a sala de chat que você freqüenta e te direi quem
és!
Não adianta chorar sobre o arquivo deletado.
Em briga de namorados virtuais, não se mete o mouse!
Em casa de programador, o espeto é de par trançado!
Em terra off-line, quem tem 486 é rei!
Hacker que ladra, não morde!
Mais vale um arquivo no HD do que dois baixando...
Teclado sujo se limpa em casa!
Melhor prevenir que formatar.
O barato sai caro e lento...
Programa velho é que faz site bom...
Quando a mensagem é demais, o Anti-virus desconfia.
Quando um não quer dois não teclam!
Quem ama um 486, Pentium 4 lhe parece!
Quem clica seus males multiplica!
Quem com vírus infecta, com vírus será infectado!
Quem envia o que quer, recebe o que não quer!
Quem não tem banda larga, caça com modem!
Quem nunca errou, que aperte a primeira tecla!
Quem semeia e-mails, colhe SPAMs!
Quem tem dedo vai a Roma.com!
Um é pouco, dois é bom, três é chat!
Vão-se os arquivos e ficam os back-ups!
Não deletei, não sei quem deletou e tenho raiva de quem deleta!
O back-up morreu de velho!
É nos menores chips que se encontram as melhores informações!
Vírus no winchester dos outros é refresh!


Retrospectiva em cinco movimentos

Alguém pode ser tão amigo quanto Werneck, mais, é impossível.
Filho de Maria Werneck, isto mesmo, companheira de cela de Olga Benário.
Jamais me negou um favor.
Impensável dizer um não a ele.
Um dia ele me fez um pedido.

O dia eu lembro bem, pois era meu aniversário, dezenove de maio.
Aliás, detesto comemorar o meu aniversário, adoro comemorar o dos outros.
Houve casos que faltei à comemoração.
De tanto pedir, em minha casa evitamos comemorar, às vezes, como não sou inflexível, fazemos uma pequena reunião.
Bebemos um pouco, mas sem jeito de festa.

Como disse antes, era dia de meu aniversário.
Werneck me telefonou.
Na ocasião ele era Subsecretário Municipal de Saúde do Rio de Janiero.
Por conta do cargo que exercia, estava recebendo um cubano, Fidel.
Calma, não era Castro.
E me propôs irmos, com o cubano, assistirmos o espetáculo do Quinteto Violado no Teatro Galeria, Flamengo, Rio de Janeiro.
Três motivos para isto.
Ele queria mostrar ao cubano o bom espetáculo de música brasileira.
Faríamos contato com os músicos após o espetáculo.
A primeira pessoa de Cuba a tratar de acordos de biotecnologia, quando veio ao Rio, ficou hospedada em minha casa.

Retrospectiva em cinco movimentos era o nome do espetáculo.
Para espanto de meus amigos, às vezes digo que não gosto de discos do Quinteto.
Quer dizer, gosto, mas comparados aos espetáculos, não gosto.
O Quinteto é um caso raro em que as apresentações ao vivo são melhores que os discos.
Principalmente os espetáculos mais antigos.
As danças, as representações, até serviram rapadura, carne-de-sol e queijo-de-coalho à platéia na Missa do Vaqueiro.

Chegamos em cima da hora, ficamos nas últimas cadeiras, o espetáculo a se iniciar.
Entre o Quarto e o Quinto Movimento, Toinho recitava um texto, explicava algo sobre o espetáculo e, às vezes, pedia licença à platéia e registrava alguma presença ilustre.
Fez isto com Geraldo Vandré, acompanhado de Vanja Orico; Guio de Moraes, Beth Carvalho, aquele novaiorquino do sapateado - que inclusive subiu ao palco e sapateou um baião de forma sublime -, Patrícia França, etc.
Pela afirmativa anterior já dá para perceber quantas vezes vi o espetáculo e o quanto freqüentei o Lamas naquela temporada.
Após o espetáculo, os convidados especiais iam com o pessoal do Quinteto ao Lamas.

Naquele dia, Toinho fez o habitual e disse:
- Gostaria de pedir licença a vocês para falar de uma pessoa, grande amigo e companheiro, imbuído do que há de melhor na cultura de Pernambuco e que representa uma grande força para todos nós, mas que tem um defeito arretado: é Santa Cruz doente! Ele é o aniversariante de hoje e gostaríamos de dedicar o espetáculo em homenagem a Manoel Carlos.
Evidentemente fiquei comovido pela homenagem.
À saída do espetáculo, como estávamos na parte de trás e íamos esperar o pessoal do Quinteto, vários amigos nos encontraram.
Teodoro Buarque de Holanda, por exemplo, comentou:
- Eu disse para Lavínia, não pode ser Manoel Carlos, ele não está com esta bola toda.
- Claro que não estou Téo, mas Toinho não vale o que o gato enterra, por isto ele é torcedor do Sport.
Até meus sobrinhos, gêmeos, Bruno e Mauro (a propósito, Mauro deixou mesmo a criação da Globo.com e foi para o Espírito Santo, acho que a UFES) estavam lá com uns amigos da ESDI.
Resultado, cerca de cinqüenta pessoas numa imprevista e improvisada festa de aniversário no Lamas.
Desta vez, todo mundo gostou, até eu.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Sexta-feira, Junho 18, 2004
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wDivagações e citações - Quarta-feira, Junho 16, 2004



O amor de Genésio e Gertrudes


Genésio era um cabra macho da gota serena.
Capaz de mamar em onça.
Casou com Gertrudes, filha do Coronel Justino.

Dizem que, se o Coronel tivesse costume de cangaceiro, teria que lixar o cabo do rifle e começar a dar novos riscos.

Genésio se aproximar de Gertrudes já assombrou a cidadezinha.
Mas foi a prova que precisava.
Desde cedo começou a ser afamado, sem muito procurar.
Farofeiro nunca foi.
De sua boca, jamais saiu pabulagem.
Mas na hora do vamu-vê, ôooxe!
Ligeiro que só pé de besta nova.
E sangrador.

Com respeito e destemor, enfrentou o Coronel.
Até que foi uma conversa dentro dos conformes.
Na medida do possível, cada um mais grosso que parede de igreja.

Ninguém imagina como um começou a espreitar o outro.
Ele, o cão chupando manga.
Quieto, mas valente.
Com as mulheres, respeitador, mas jeitoso.
Trabalhador, mas farrista.

Ela, prendada.
Rendeira maior, de bilro a renascença.
Cozinheira de mão cheia.
Encantava no acordeom - nome besta dado à sanfona.
Lia sem gaguejar.
Não apenas missal e cordel.
Livro de verdade, poesia, romance.
Até mesmo em outras línguas; é o que dizem.

Ela, também, tinhosa.
Nem mesmo para o Coronel abaixava o olhar.
Montadora de burro brabo, campeã de vaquejada.
Sabedora de que a Primeira Dama de um estado dava no Governador com toalha molhada, exclamou:
- Ôxe! Só se não tivesse vara de cipó de aroeira. Um lanho para cada quenga!

Ao todo, um sonho em forma de mulher.
Sabida, bonita, altiva e prendada.

Namoro e noivado curtos.
Sugestão do próprio Coronel Justino.
Evitaria inconvenientes intimidades.
E foi uma saída honrosa para o Coronel.
Ninguém, nem mesmo ele, seria capaz de enfrentar aquele casal.

O casamento foi um festão.
Uns avaliaram a grandiosidade pelo número de cabeças abatidas.
Outros pelo número de carros chegados à cidadezinha.
Até no jornal da capital foi noticiado.

Durante três dias a cidade inteira festejou.
Pelas ruas, mistura de festa junina com carnaval, vaquejada e pastoril, cantoria e bambelô.
Emendando noite com dia.
Por toda parte, pipoco de roqueira, estrondo de reiúna.

Os irmãos Araújo, cada qual com sua orquestra.
Severino, mais famoso, veio do Rio de Janeiro.
Reorganizou a Natambijara.
Do Recife, família Madureira e Quinteto Violado.
Teve Coco de Mané Dotô.
Zabumba de Norato, com quatro pífanos.
Cantadores, os melhores, Zé Castor, irmãos Batista Patriota (Lourival, Dimas e Otacílio), Beija-flor, Treme Terra, Oliveira, Ivanildo Vilanova...
No dia seguinte, até cordel já registrava o evento.
Não era para menos.

Foram morar numa fazenda, só deles.
Na primeira vez que voltaram à cidade, ficaram na casa do Coronel Justino.
Ninguém esperava, mas sucedeu.
Genésio se meteu na farra.

Quem, na cidade inteira, havia de dormir?
Luzes apagadas, janelas fechadas, fuxiqueiras nos postigos.
Silêncio sepulcral.

Alta madrugada de lua cheia.
Ecoa o som do trotar de Corisco.
Baio vistoso e fogoso, conhecedor do caminho.
A pé, passos trôpegos, Genésio certamente cairia.
Duma sela, jamais.

Concomitante à chegada de Corisco, a porta se abriu.
Gertrudes, vassoura na mão, carrancuda.
Andar lento e determinado em direção ao ébrio marido.
Ainda do alto de Corisco, Genésio exclamou:
- Minha Flor, amor da minha vida, vai varrer o terreiro ou passear pelos ares?


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quarta-feira, Junho 16, 2004
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wDivagações e citações - Segunda-feira, Junho 14, 2004



Três poemas africanos


Consciencialização

          Agostinho Neto (1973)

Medo no ar!

Em cada esquina
sentinelas vigilantes incendeiam olhares
em cada casa
se substituem apressadamente os fechos velhos
das portas
e em cada consciência
fervilha o temor de se ouvir a si mesma

A história está a ser contada
de novo

Medo no ar!

Acontece que eu
homem humilde
ainda mais humilde na pele negra
me regresso África
para mim
com os olhos secos

Grito negro

          José Craveirinha (1964)

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutamente do chão
E fazes-me tua mina
Patrão!

Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão
Para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não
Patrão!

Eu sou carvão!
E tenho que arder, sim
E queimar tudo com a força da minha combustão

Eu sou carvão!
E tenho que arder na exploração
Arder até às cinzas da maldição
Arder vivo como alcatrão, meu Irmão
Até não ser mais tua mina
Patrão!

Eu sou teu carvão!
Tenho que arder
E queimar tudo com o fogo da minha combustão.

Sim!
Eu serei o teu carvão
Patrão!

Adeus à hora da largada
          Agostinho Neto (1973)

Minha mãe
            (todas as mães negras
            cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis
Mas a vida
matou em mim essa mística esperança
Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida
Hoje
somos as crianças nuas nas sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbados a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos
Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura
Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
                  (todas as mães negras
                  cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.

MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Junho 14, 2004
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Quinta-feira, Junho 10, 2004



Idiossincrasia


Das insanidades

O silêncio apenas é quebrado pelo meu próprio mutismo.
In Letras ao Acaso.



Da colina, avistou as muralhas de Cância.
Parou.
Não passava de um velho e pobre camponês.
Durante toda a vida, alimentou o sonho de conhecer a capital de sua ilha, Creta.
Já no fim da vida, conseguiu comprar um cavalo e empreender a viagem.
Para isto, enfrentou e superou dificuldades, fez sacrifícios.
Estava prestes a realizar o sonho de sua vida.
Entretanto, ao avistar as muralhas, decidiu:
- Não admito que nem mesmo um sonho mande em mim.
Deu meia volta ao cavalo e retornou.

Não há conotação machista na afirmativa a seguir, mas a curiosidade feminina é, em geral, mais intensa que a masculina.
Muitas amigas jamais conseguiram entender a atitude do velho camponês.
Certamente é difícil entender como a curiosidade pode ser sufocada por outro sentimento.
Por incrível que pareça, sempre entendi o velho e pobre camponês cretense.


Das insanidades

O silêncio apenas é quebrado pelo meu próprio mutismo.



Li o título e a primeira frase.
Parei, refleti e reli.
Imaginei o texto que viria a seguir.
Ao mesmo tempo, considerei que o texto estava completo.
A sensação de completude do texto superou a curiosidade a respeito do que viria a seguir.
Empaquei e lembrei do camponês cretense, resgatado pelo escritor Nikos Kazantzaki.
Desculpe-me Zé Pinto, mas não li o resto do texto.
Bastaram-me o título e a primeira frase.
Que mais havia a dizer?
Não sei, não retornei para ler.

Informação é poder

Flora me perguntou qual a estatura média das brasileiras.
- Não sei.
- Onde posso obter esta informação?
- Não pode. Quando eu era pequeno, uma vez por ano, na escola, nos mediam e pesavam. Duvido que aqueles dados estivessem disponíveis fora da escola. Hoje quem é medido ou pesado?
Flora é tão teimosa quanto o pai.
E foi ao sítio da CIA, isto mesmo, a Central de Inteligência.
De tanto ouvir gargalhadas eu me interessei e fui ao escritório.
- Pai, como Bush pôde invadir o Iraque usando informação da CIA? Isto aqui está tragicamente cômico!
Nos EUA é proibido perguntar a religião ou a crença de alguém.
Apesar disto eles têm esta informação quantificada.
Agora entendo em que fonte beberam os nossos institutos de pesquisa de opinião.
Mas vale a pena ver o que Flora escreveu sobre o assunto, em Bloggagens.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Quinta-feira, Junho 10, 2004
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Segunda-feira, Junho 07, 2004



Campeoníssima Lara

4. Festival da Canção de Lagoa 2004, Algarve, Portugal.
Primeiro Lugar:
Maestro do amor - Letra e música de Lara Santos
Interpretação: Elsa
Melhor melodia: Maestro do amor
Melhor letra: Maestro do amor
Quinto lugar:
Fé no teu regresso - Letra e música de Lara Santos
Interpretação: Lara Santos
Nós, agrestinos, somos mais grossos que papel de embrulhar prego.
Não conseguimos, como gostaríamos, expressar nossas emoções, manifestar nosso carinho.
Resta-nos dizer: parabéns!

A foto de Lara Santos foi obtida em http://www.promusica.web.pt/

Legião estrangeira

Denise Arcoverde, pernambucana, Leila Silva, mineira criada em Goiás, Maria Fabriani, carioca, Nora Borges, pernambucana, e Rosângela, mineira.
As cinco têm em comum o quê?
Claro que todas me alegram e honram com suas visitas ao Agreste, mas não é isto.
São brasileiras radicadas no exterior.
Respectivamente na Suécia, Bélgica, Suécia, Espanha e Alemanha.
Caminhos inteiramente diversos.
Todas, de alguma forma, conseguem mostrar para nós o dia-a-dia de uma brasileira imigrante.
Denise, em Síndrome de Estocolmo, retrata o seu cotidiano, revelando aspectos corriqueiros da vida sueca, mas ao acompanhá-la, ficamos com a sensação de que a nossa rotação está um pouco baixa; entrementes, vez ou outra, levanta questões referentes ao modo de vida sueco e estabelece comparações com a vida no Brasil; além disto, mostra-nos passeios incríveis por países que poucos brasileiros imaginam como são.
Leila, em Cadernos da Bélgica, apresenta contos cujos personagens não parecem fictícios, mas saídos do mundo real, são experiências nem sempre alegres; as suas observações sobre a vida de brasileiros radicados em Bruxelas nos remetem à realidade sem mistificação.
Maria, em Montanha-Russa, aborda de forma profunda a relação de imigrante, os aspectos sociais e antropológicos, mas sem ranço academicista. Parece que dia a dia, ao refletir sobre a sua condição de imigrante, ela descobre mais algumas de suas características brasileiras.
Nora, em Cicatrizes da Mirada, apresenta um roteiro turístico da Espanha, mas o olhar é cultural, com abordagem histórica, numa narrativa envolvente.
Para que apresentei em ordem alfabética? Só de pensar em Rosângela, fiquei com os pés doendo de tanto andar. Um dia nas florestas, outro em jardins, caminhadas, acampamentos e até viagens a outros países. Em Iliquido estou sempre a aprender algo sobre cada lugar por ela visitado, desde os costumes locais à origem da cada coisa.
Em comum, elas têm a permanente ligação com o Brasil, mas vivem, não apenas moram, nos países que as receberam, num processo de integração e não adaptação, como bem distinguia Paulo Freire.
Na manutenção dos vínculos com o Brasil, passamos a pertencer ao mesmo universo bloguístico; elas fazem parte dos elos agrestinos e me ajudam a aprender um pouco mais a ser brasileiro.
Grato.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Segunda-feira, Junho 07, 2004
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Sexta-feira, Junho 04, 2004



Mineirice

Centro do Rio.
Típico botequim tradicional.
Copos saídos diretamente do congelador, chope espumante e gelado.
Eu, Moacir Lopes e Alvanísio, coisa rápida, alguns copos e nos dispersamos.
Depois voltaríamos a nos reunir no mesmo lugar, mas Alvanísio escafedeu-se.
Cada um para um lado.
Fiquei um pouco com Fausto Wolf, Antônio Oséas e Sérgio Caldieri.

Alvanísio diz que é pernambucano, duvido.
Ultimamente tem editado e reeditado os livros de Moacir Lopes.
Morador de Santa Tereza, há alguns anos é o presidente do Bloco das Carmelitas.
Sujeito simples, afável, discreto, ninguém tem motivos para falar mal de Alvanísio.
E daí? fala-se sem motivos mesmo!
Quando ele virou presidente do Bloco das Carmelitas, falavam mal porque o bloco era pequeno.
- Parece enterro, um pequeno grupo... cadê o espírito carnavalesco? Não há condições de botar o bloco na rua deste jeito.
O bloco virou uma das sensações do carnaval de rua do Rio de Janeiro.
Pronto. Mais um motivo para se falar mal de Alvanísio.
- Que gigantismo desenfreado! Ninguém consegue andar em Santa Tereza no desfile do Carmelitas. Bom era antigamente...

Alvanísio aproveitou para falar de Moacy Cirne, seu professor no tempo da Faculdade de Comunicação da UFF.
Fez uma afirmativa óbvia: - todo mundo gosta muito de Moacy.
Às vezes é exatamente o que queremos ouvir: coisas óbvias, evidentes, incontestáveis.
Principalmente quando são elogios às pessoas que prezamos.
Qualquer um, em menos de cinco minutos, percebe que Moacy é uma pessoa especial: gentil, atencioso, atento às coisas fundamentais da vida, cativante contador de causos.
Alvanísio disse que passeia por Agreste e balaio vermelho.
Sem deixar um comentário?
Por isto não acredito quando ele diz que é pernambucano, deve ser mineiro.

Bairrismo

Recebi, por e-mail, a mensagem:


Olá, pernambucano.
Dói-me vê-lo a exaltar a Dulce Pontes que, não nego, é uma grande cantora portuguesa... mas daí a alçá-la ao posto de melhor cantora popular do mundo , digamos que beira o exagero.
Logo aqui no Brasil, berço de grandes e respeitadas intérpretes, isso fica com jeitinho de desprezo ao que vem de nossa lavra....
Quanto às questões políticas que norteariam - ou não - a carreira de Amália, é sempre bom deixar isso pro segundo plano; afinal não foi através de pleito que ela ganhou aquele talento para interpretar os fados, ora poixxxxx.
Abraços da mineirinha
A C


Li, meneei a cabeça e sorri para mim mesmo.

Todos nós somos um pouco bairristas, mas alguns amigos dizem que sou separatista.
Chegam a me comparar a Policarpo Quaresma porque os estrangeirismos me incomodam.
Performance? Não tem a precisão de desempenho ou de rendimento.
Usar para quê?
Entretanto, não sou xenófobo.
Gosto de Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Dostoiévski, Eça, Gorki, Lorca, Pessoa, Tolstoi, Victor Hugo, Zola...
Chaplin, De Sica, Fellini, Godart, Kurosawa, Kobaiashi, Monicelli, Santiago Alvarez...
Abethi Massikini, Abdullah Ibrahim, Alexandre Langa, Antonio Lauro, Billie Holiday, Bonga, Charlie Parker, Compay Segundo, Fela Anikulapo Kuti, Fontinhas, Ibrahim Ferrer, Ismael Lo, Louis Armstrong, Manolo Sanlucar, Manu Dibango, Manuel Cubedo, Nené Tuty, Oliver N´Goma, Omar Pene, Pablo Milanes, Pacheco de Gumbé, Paco de Lucia, Rafael Cañizares, Rui Mingas, Rui Sangara, Toure Kunda, Os Tubarões, Victor Jara, Violeta Parra, Youssou Ndour...
Botticelli, Caravaggio, Cezanne, Gauguin, Goya, El Greco, Leonardo da Vinci, Malangatana, Manet, Modigliani, Monet, Picasso, Raffaello Sanzio, Rembrandt, Renoir, Van Gogh, Velazquez...
Camille Claudel, Chissano, Michelangelo, Rodin...
Estas minhas preferências não diminuem a minha brasilidade.

Houve uma época que o Instituto Cultural Brasil África tinha como Presidente do Conselho Oscar Niemeyer, sendo Presidente Edmundo Muniz, cabia a mim, na condição de Secretário Geral, carregar o piano.
Promovemos inúmeras atividades com baião, bambelô, bumba-meu-boi, capoeira, cateretê, chorinho, ciranda, coco, congada, embolada, frevo, jongo, maculelê, maracatu, reisado, repente, samba, samba-de-roda, taieira, tambor-de-crioula, vissungo, xaxado, xote...

Evidentemente, desconheço inúmeras manifestações culturais brasileiras; certamente não dou o devido valor a algumas cantoras e intérpretes.
Por ignorância sim; por desprezo, não.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Sexta-feira, Junho 04, 2004
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações - Terça-feira, Junho 01, 2004



Agrestia africana - complemento


01/06/2004

Caro Pinheiro,

Podes certamente publicar. Alguns esclarecimentos:

Ku Femba, quer dizer feitiço numa das línguas locais de Moçambique. Já agora segue um provérbio muito antigo em ronga, também inscrito no mesmo livro "Tico dji bolile. À qué hé ná nau", o que quer dizer "O país cai na podridão. Já não há respeito (lei)." Esclarecedor não?

João Salva-Rey é o pseudónimo literário de João Corrêa dos Reis, natural de Lisboa, fixado em Moçambique, Lourenço Marques, desde Janeiro de 1937 até finais de Dezembro de 1975. Vive há mais de 15 anos em Macau. É historiador e jornalista, foi ele quem editou em Moçambique o livro do Luís Bernardo Honwana "Nós matamos o cão tinhoso", autor de quem anexo um artigo. Fundou em 1962 o jornal Tribuna em Lourenço Marques onde teve como colaboradores José Craveirinha e Rui Knopfli (poetas moçambicanos), Eugénio Lisboa, Orlando Mendes, Rui Nogar (escritores e poetas moçambicanos), de entre outros.

Foi preso pela PIDE em 1964, com José Craveirinha e Malangatana. A propósito da morte do Craveirinha escreveu um artigo que foi publicado em Macau, que anexo. Existirá algum potencial interesse em publicar o livro no Brasil?

O Alberto Chissano escultor, suicidou-se, infelizmente deixando-nos órfãos de uma escultura e visão interior riquíssimas.

Um grande abraço
Zé Paulo

Iòé! iòé! O Craveirinha moreu!...

João C. Reis

José João Craveirinha começou a sua vida como auxiliar de escritório numa sociedade Cooperativa, não por capacidades comerciais específicas, mas por ser um potencial marcador de golos de cabeça, da equipa de futebol do Grupo Desportivo de Lourenço Marques.

Foi assim, e por essa habilidade, que o conheci, e o descrevi numa desataviada crónica desportiva que então publicava no jornal Lourenço Marques Guardian. Fiz-lhe algumas prognósticas referências nesse sentido, e ele veio agradecer-mas. Deste modo começaria uma longa convivência, que durou até Dezembro, um ano depois do 25 de Abril - quando regressei a Lisboa, após quarenta anos de interregno moçambicano.

Enganei-me nos vaticínios. Embora vizinhos, quási de porta-a-porta, como depois seria, sempre na Mafalala, com o Eusébio, e outros, o Zézé não seria um (primeiro) Matateu, obliquou, na carreira, não sei se bem, se mal - e foi para o campo das letras.

Costuma falar-se no dom de palavra de certas pessoas, espontâneas e calhadas para a oratória, mas ninguém diria que o Zé Craveirinha acabasse num verdadeiro e lídimo artífice da palavra, portuguesa, como viria a ser. O destino, ou lá o que tivesse sido, pregou-lhe essa partida, instilou-lhe na inteligência, uma agudíssima apetência por tudo quanto era escrita (tendo não mais do que a quarta classe elementar), e quando sentiu absoluta e urgente necessidade de começar a vida, entrou, pelo futebol, no comércio a fazer facturas de vendas de leite, e por acréscimo circunstancial, no jornalismo associativo, como revisor num pequeno hebdomanário propriedade de uma periférica Associação Africana - O Brado Africano, que acabaria por lhe servir de trampolim, para fazer publicar, para encher buracos vazios por falta de colaboração, alguns pequenos textos, notas sociais, e, de autoria já firmada, alguns poemas.

Seria numa dessas circunstâncias que faria uma vez publicar nesse humilde semanário periférica de mulatos, uma poesia que viria a provocar muito maior perplexidade, do que emoção: Quero Ser Tambor - tambor onde se repercutiam os gritos de miséria e revolta, e os anseios do povo da cidade do caniço, tão fortemente discriminado, explorado e oprimido. Politicamente, e socialmente, o poema teve fortíssimo impacte, decerto, muito mais pelo inesperado de uma revelação, do que pela literatura, acerto das palavras, contundência das ideias, e da consciência critica, que não cabiam bem no hábito, nem nas expectativas da gente pachorrenta e prudente daquela bela cidade perfumada, de acácias rubras e lilases jacarandás, inimiga das novidades e dos perigos subjacentes aos golpes de um mulato raivoso. Ninguém se iludiu a esse respeito, isso, não.

Talvez tivesse sido mais pelo bom português patenteado da sua escrita, do que pela poesia, ousada, exótica, que punha em questão arrogâncias e indisfarçáveis antinomias, humanas, sociais e políticas - que lhe fosse arranjado um lugar de ajudante de revisor na Imprensa Nacional. Verdadeiramente, porquê, nunca se soube. Há muitas formas de fazer calar as pessoas que falam alto de mais, umas menos subtis que outras, mas todas de eficácia comprovada.

Da Imprensa Nacional, onde se praticava o horário único, para arredondar o magro salário de "auxiliar" que auferia pelos motivos aduzidos, e pelo facto de, na profissão, não ser, propriamente, um analfabeto, foi convidado a ingressar, por acumulação, e, igualmente, como ajudante, ou auxiliar, no departamento de revisão do Notícias, o maior, e o mais rico jornal da Colónia Era assim naqueles tempos. Pretos e mulatos serviam apenas para ajudantes ou auxiliares de serviços, com salários, naturalmente, compatíveis.

E, por hábito, ou não, de uma coisa se passa a outra. Com o tempo, a situação do Craveirinha, no jornal, ganhava relevo, por estímulo do instinto, ou arreganho de competição sofreada, já escrevinhava pequenas coisas, como lhe acontecera no Brado Africano, textos curtos, anónimos, ou publicados sob pseudónimos, acabaria, mesmo, por ter direito de facto, embora não oficialmente outorgado, a uma "coluna" semanal assinada, normalmente, "cartas culturais" ou, por assim dizer, dialécticas, dirigidas a distintos - indistintos, onde escrevia coisas que ninguém mais se atrevia a escrever, por indiferença, por falta de competência, ou de coragem. Os destinatários (quando não tugiam nem mugiam, dadas a qualidade, a evidência, a força, e a curialidade dos argumentos, sobretudo, o medo da tréplica) nem sempre reagiam bem ao atrevimento do mulato. Calavam-se - mas passaram a cumprimentá-lo, cordealmente, nas ruas. E as coisas corriam. A verdade é que o jornal, sempre aos sábados, dia da prosa do Craveirinha, ganhava uma dimensão que nunca antes (nem depois) alguma vez tivera. Um, ou dois colegas, por essa ocasião, entenderam dirigir-se uma vez à então directora do Jornal a sugerir (porque era justo) que se atribuísse ao Craveirinha o estatuto de jornalista, com compensação adequada. A resposta que obtiveram ficou na história do jornal: Para aquilo que ele é, e o seu nível natural de vida, o rapaz até ganha de mais! (O que ele recebia não chegava a metade do que ganhava um simples repórter - mas, claro, o repórter era branco, e tinha um nível de vida diferente, isto é, comia três refeições diárias, tinha que vestir e calçar, e andar engravatado, viver numa casa de alvenaria, tudo como um branco. Representar e honrar o jornal como uma instituição respeitável.

Nessa época, já nos celebrados anos 60, tempo de literaturas e rebeldias artísticas, graças, ou não, à pagina literária do Santos Abranches, do mesmo Jornal, na qual, e não por culpa do responsável, o Craveirinha não colaborava - sobrevivia uma plêiade de jovens a fazer arte e poesia, entre os quais, o Reinaldo Ferreira, o Rui Knopfli - e outros, de quem a história se esqueceu - que não dos referidos.

E daí, que alguém, por desafio, pensasse organizar um Sarau não-racial de Poesia, por ocasião da data comemorativa da do aniversário da Cidade (24 de Julho) no salão nobre do edifício da própria Câmara Municipal. Houve, naturalmente, quem resmungasse da ideia e do local onde - mas a noticia já aparecera nos jornais, ninguém se atreveria a proibir a iniciativa.

O evento, do qual se editaria depois um disco, hoje raríssimo, foi realizado (1962) em duas sessões, sob vigilância pidesca reforçada, tendo constituído, apesar disso, assinalável sucesso, principalmente porque ninguém fazia ideia daquele inesperado submundo de literatos e artistas, nos quais se incluíam ainda o arquitecto Pancho Miranda Guedes, os pintores João Aires, o Malangatana, o Obdias, o Zé Julio, Eugénio Lisboa, Augusto Cabral, o Rui Calçada Bastos, o Antero, e o Freire, os escultores Alberto Chissano, e Zé Lobo Fernandes, os contistas Luís Bernardo Honwana, a Lina Magaia, e outros rebaldecos (alguns nem tanto...) Foi uma revelação! O Zé Craveirinha passou a ser uma referência específica. Para o bem, e para o mal. No geral, mesmo entre os que o conheciam, temiam-no mais do que o apreciavam. Sempre assim foi, sempre assim seria.

Mas o submundo de então não era constituído apenas por artistas e diletantes. Moçambique projectava-se igualmente no mundo da bola, através do Matateu e do irmão Vicente, do Coluna, do Costa Pereira e do Eusébio. Mas sobretudo por uma população catalizadora, de recalcitrantes, dos perseguidos e injustiçados, discriminados, muitos deles, legalmente, pelo famigerado Acto Colonial de 1939.

Vilipendiados em Lisboa, perseguidos pela Pide, louvados e respeitados na ONU, esse "areópago de bandidos sob influência, e soldo de Moscovo apostados em destruir Portugal!" E muitos foram presos, e muitos morreram, e outros fugiram, para organizar a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique). A certa altura do campeonato, aparece em Lourenço Marques, vindo da Tanzânia, um tal Joel Monteiro, ex-estivador da ponte-cais, para instalar a quinta região militar da Frelimo. Até que a Pide o apanhasse, ao fim de mais de um mês de buscas e perseguições, o Joel promoveu diversas reuniões, das quais ficaria o embrião de um sentimento global mais generalizado de recalcitrantes e contestadores. Com a detenção do Joel - a Pide prendeu, de seguida, (1964) indiscriminadamente, centenas de pessoas, entre as quais o Malangatana, o Rui Nogar e muitos outros, e até o subscritor destas linhas.

O Zé Craveirinha conseguiria fugir para o país vizinho da Suazilândia. Três meses depois, a PIDE faz-me uma proposta "generosa": libertavam-me imediatamente, sem processo, na condição de eu ir à Suazilândia, e trazer o Craveirinha, que até já estava arrependido de haver fugido, aliás, sem razão, etc., e tal - e queria agora regressar....
Respondi que não. Nanja eu!

Então o agente sub-chefe, ensimesmado, mostra-me uma carta em que o Craveirinha, efectivamente, me pedia que o fosse buscar, porque a família estava a passar mal, tinha saudades de casa, desejava entregar-se, e se fosse necessário, juntar-se, assim, solidariamente, aos seus amigos encarcerados.

Continuei a dizer que não. Nem com promessas, ou ameaças me prestaria a isso. Não por altruismo, ou calculismo... não era nesse tipo de "libertação" que eu pensava para mim próprio. Se queriam prendê-lo, que fossem eles lá buscá-lo. Foram eles que tiveram de lá ir. E assim porque não o fiz eu, por isso paguei o meu preço, ficando mais três meses à sombra. Por castigo, na solitária. Mas também por isso tive oportunidade saber, em directo, da bizarria de um tal Lord Russel de Liverpool, homem de Esquerda, como se acentuava, que um dia foi a Lourenço Marques para tomar conhecimento das condições em que se encontravam os presos políticos, especialmente, os agora já mundialmente conhecidos, José Craveirinha e o Malangatana, que por manhosa intencionalidade dos carcereiros, se encontravam juntos, e com o Rui Nogar, na mesma cela 1. O Craveirinha perguntaria: porquê ele? Encontravam-se ali enjauladas centenas de pessoas, e até "dois brancos" não via razão nenhuma para ser privilegiado pela visita de um Lord, e portanto, recusava terminantemente em ser "visto" pelo britânico de sotaque socialista. Ele não conhecia nenhum Lord nem de esquerda, nem de direita.

Tudo isto me contaria ele num rolo de papel higiénico, que me foi trazido por um guarda moçambicano, o Ricardo, guarda-auxiliar, naturalmente, e que era o nosso correio, mal disso desconfiavam os carcereiros de carreira, e ainda menos os agentes encarregados do processo. Foi um bom amigo, o Ricardo, generoso, e corajoso, sabendo muito bem os riscos que corria naquela solidariedade com os renegados. Foi pelas mãos dele que um dia recebi um rolinho de papel higiénico a comunicar-me laconicamente que: O Joel morreu! - acompanhado de um poema, da Cela 1 para a (minha) cela 4. É - tinha morrido o Joel. Provavelmente de indigestão. Iòé, iòé, que o Joel moreu!

E agora, iòé, moreu o Craverinha! Iòé! Iòé!

Obra publicada de José Craveirinha:
-Chigubo - 1964
-Karingana wa Karingana - 1994
-Cela 1 - 1980
-Babalaze das Hienas - 1992
-Hamina e Outras Histórias - 1997

Macau, 2003


Em 20/01/2004, Agreste publicou Quero Ser Tambor de José Craveirinha.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Terça-feira, Junho 01, 2004
Comentário e zombaria:


wDivagações e citações -



Agrestia africana

Antes que Zé Pinto Correia de Letras ao Acaso reclame mais uma vez, com toda razão, na próxima semana haverá uma postagem exclusivamente dedicada a Agostinho Neto.
Ao contrário do que possa imaginar o amigo, gosto do Pai da Pátria angolana.
Quando Secretário Geral do Instituto Cultural Brasil África, criei o Cine Clube Agostinho Neto.
Realizávamos sessões na sede do Instituto, três vezes por semana, com a participação de cerca de cinqüenta pessoas por sessão.
Realizávamos sessões em escolas da rede pública, em função de efemérides.
Também o fazíamos regularmente em três favelas: Jacarezinho, Nova Holanda (no Complexo da Maré) e Vidigal, com freqüência média acima de duzentos expectadores.
Desta vez, o Agreste será entregue, bem entregue, ao moçambicano José Paulo da Fonseca Pinto Lobo. A seguir, mensagens que o amigo me enviou.


25/04/2004
Caro Pinheiro,

A propósito das comemorações do trigésimo aniversário da Revolução dos Cravos (25 de Abril) em Portugal, acabei relendo um trecho de um romance "Kufemba" do João Salva-Rey, tio da Fernanda, a propósito de um slogan que o Governo daqui lançou - "Abril é evolução". Os caras estão envergonhados com a palavra revolução tendo deixado cair o "r".

Então, nesse romance a dada altura (pág. 258), diz o anti-herói da história:

" - À força de se ouvir por aí, falar em dever cumprido, sacrifícios sofridos, a juventude é levada a olhar para trás, analisar friamente o mundo que das mãos de uns passa para as mãos de outros, um mundo terrível de problemas não resolvidos, guerras devastadoras, exploração dos trabalhadores, fome, miséria, hipocrisias sem fim, uma moral convencional e ambígua, apoiada na falsidade e na mentira. Diga-me por favor - ... - que espécie de exemplos poderemos adoptar da geração que nos deixa tal testemunho?"

Imagina que este texto foi escrito em 1972! Alguma coincidência com o mundo actual onde vivemos? Serve perfeitamente para descrever o estado actual das coisas em Moçambique e em Portugal. Servirá também para ilustrar a realidade brasileira?

Mais tarde enviar-te-ei outros trechos do livro que é de facto delicioso, estando ilustrado com desenhos do Malangatana, José Júlio, Jameci Tiane (1º pintor naif moçambicano). Trata da realidade da cidade de Lourenço Marques (actual Maputo) de 1937 a 1974. Infelizmente está esgotadíssimo, mesmo nos alfarrabistas.

Um abraço
Zé Paulo


Um dos imensos prazeres proporcionados pela edição deste Agreste tem sido a oportunidade de alguns encontros e reencontros.
Recentemente, Zé Paulo (Pinto Lobo) tem feito alguns comentários.
Uma honra e um prazer.

Zé Paulo tem me enviado preciosidades, como um conto do amigo Mia Couto.
Pretendo publicá-lo aqui, mesmo sem autorização prévia, pois certamente Mia Couto não nos processará.

Se não estou enganado, João Salva-Rey reside em Goa, se for o caso, Zé Paulo me corrigirá em comentário.

Na minha opinião, Malangatana é um dos maiores pintores de todo o Mundo, não apenas de Moçambique.
Juntamente com o pintor Mankéo e o escultor Chissano, a expressão máxima das artes plásticas moçambicanas.
Chissano, para que não pairem dúvidas, é Alberto Chissano, escultor, já o Presidente da República é Joaquim Alberto Chissano, conhecido como Joaquim Chissano, sem parentesco direto, apesar dos nomes quase iguais.

Ah! o R já deu pano pra manga. Circulou na internet uma foto com um painel de propaganda no qual o R estava pintado em vermelho.
Infelizmente qualquer semelhança não é mera coincidência, como dizemos nós, brasileiros.


01/06/2004
Caro Manoel,

Como hoje é o Dia Mundial da Criança, resolvi mandar-te um texto, já antigo, de 1996, que é um prefácio escrito por Graça Machel para um livro: "Para compreender a(s) criança(s) moçambicana(s) - maneiras de dizer e olhar". Apesar de já terem decorrido praticamente 8 anos, penso que ainda está actual e te dirá algo, já que, para além de teres filhos, foste também parte integrante de um processo político de mudança que se desencadeou após independência em Moçambique.

"Tenho para mim a convicção e o sonho de ver o meu país, o meu povo e a sociedade que integro, a adoptar como critério essencial para se auto-avaliar - como sociedade sã - a forma como se tratam as suas crianças. Este sonho feito convicção vinha consubstanciado nas políticas e estratégias que desenhámos logo depois da independência.
....

Foi esta visão que nos conduziu a desembocar na Declaração dos Direitos da Criança Moçambicana. Uma visão em que o desenvolvimento integral da criança constituía a pedra de toque do nosso projecto social.

O sonho foi brutalmente interrompido pela guerra de agressão. Mas, nas condições de hoje há que retomar o nosso compromisso, a nossa promessa para com a criança da nossa terra.

Seremos uma sociedade sã consoante o retrato que apresentarmos sobre o perfil da criança moçambicana:

Quando a criança moçambicana for amada e acarinhada no seu lar;
Quando a família não a violentar e abusar;
Quando a criança moçambicana não mais engrossar as fileiras da marginalização - na prostituição, na toxicodependência, nas quadrilhas armadas (ou não), nos bandos que "assaltam" quem vai ao bazar ou a um supermercado, que vegetam no mundo - que são a expressão da nossa vergonha;
Quando a criança moçambicana não morrer às centenas de milhar por ano, vítimas de doenças evitáveis;
Quando milhões de crianças em idade escolar deixarem de ficar à margem do ensino básico;

Aí sim, diremos que somos uma sociedade sã. Poderemos com orgulho afirmar que oferecemos à nossa criança as condições básicas para ela nascer, crescer robusta, apta a desenvolver o seu potencial, e porque não, crescer feliz.

É neste contexto que desde a família à escolinha comunitária e creche, da escola e centro de saúde, aos jogos escolares e grupos de criação artística, a aposta na criança moçambicana é o moldar do bem mais precioso que colectivamente legamos à posteridade..."


Um abraço
Zé Paulo

PS: Tenho-te enviado com regularidade mails, mas não tenho recebido respostas. Será que não os recebes?


Há um dado preocupante.
Quando retornei de Moçambique, a delinqüência infantil e a prostituição não eram, que eu soubesse, problemas dignos de nota.
Pouco mais de dez anos após, para ser citado pela Ministra...
A Declaração dos Direitos da Criança Moçambicana é bem anterior a esta data. Qualquer dia a publicarei.


01/06/2004
Caro Manoel,

Ultimamente não consigo "postar" nada no teu blogg. Não sei se o defeito é da minha máquina, porque vejo comentários de outras pessoas. Gostei dos teus últimos posts.

Em relação às questões do Iraque, por muito que já tenha sido dito, acho que é o resultado da política internacional das várias administrações americanas ao longo dos anos. Há aspectos que são preocupantes, que é a desfaçatez da mentira e a posterior desculpabilização, elogiando as virtudes da democracia pelo facto de terem sido denunciados os casos de tortura. Penso que uma das virtudes da democracia, para além da liberdade de expressão e de associação (bem...em alguns casos, já que Lula tem dado uns exemplos estranhos...) é o compromisso com a verdade. Quando uma nação e não só os seus políticos dirigentes, envereda pelo caminho da mentira, deixa de ser uma democracia, está apenas travestida em defensor das liberdades, porque na prática, está escondendo a sua verdadeira face de ditadura à escala mundial, usando uma máscara de belas palavras.

Outro aspecto relevante e penso que a actuação de tortura no Iraque é disso consequência, é o facto dos cidadãos dos EUA não estarem abrangidos pelo TPI - Tribunal Penal Internacional, que julga crimes de guerra e contra os direitos humanos, dando a sensação a esses cidadãos de total impunidade.

Em termos de literatura africana o que quis postar e não entrou foi a seguinte mensagem:

Caros navegadores blogguistas,
Sugiro consulta a sites seguintes para conhecimento de alguns autores africanos de expressão portuguesa:
1.http://pintopc.home.cern.ch/pintopc/www/Africa/Africa.html - apesar de não estar muito actualizado, encontrarão por ordem alfabética diversos autores e excertos de livros, desde os consagrados, como Agostinho Neto, Pepetela, Luis Romano, Craveirinha e Mia Couto, até aos menos conhecidos como Rui Nogar, Alda do Espírito Santo ou Patraquim, poetas e romancistas de Angola, Moçambique, S.Tomé, Cabo Verde.
2.www.vidaslusofonas.pt/pepetela.htm - Pepetela (Os cães e os caluandas)
3.www.terravista.pt/Bilene/1980/letras/ukhosa/index.html - Ungulani Ba Ka Khosa (Ulalapi, Orgia dos Loucos - romances)
Como moçambicano que sou, aconselho a leitura de Nelson Saúte (A Pátria dividida-poesia, Narradores da sobrevivência - romance), Ungulani Ba Ka Khosa (Ulalapi-romance), Paulina Chiziane (Ventos do apocalipse-romance), Luís Carlos Patraquim (Monção e Lindemburgo Blues-poesia).
Abraço

Penso que poderás, com alguma regularidade, "piratear" alguns excertos para publicação. Não sei se chegaste a receber o mail em que te dizia que podias publicar à vontade os excertos do Ku Femba.

Mando-te em próximo mail alguns poemas de que gosto, de poetas moçambicanos.
Um abraço
Zé Paulo


Pinto Lobo não conhece a capacidade que os Analistas de Sistemas têm em promoverem o caos.
Também tenho desconseguido (gostaram do moçambicanês?) comentar ou até acessar alguns blogues amigos.
Creio já ter publicado alguns destes autores aqui em Agreste.
A falta de referência aos guineenses me fez lembrar de uma vez em Bissau.
Conversávamos sobre afinidades entre Brasil e África.
Vasco Cabral me perguntou porque eu citava tanto Angola.
Como não podia deixar de ser, reconheci que a minha região teve uma marcada influência de povos oriundos de Angola, especialmente Cabinda, e Congo.
Creio que os povos provenientes de Cabinda eram anteriores aos Fiote.


01/06/2004
Caro Manoel,

Mando-te dois poemas do Rui Nogar, poeta moçambicano, gente boa, infelizmente falecido com uma malária cerebral, que ninguém soube diagnosticar aqui em Lisboa. Não sei se o chegaste a conhecer em Maputo, já que ele era visita frequente de casa dos meus pais.

O primeiro Xicuembo (feitiço) é um dos seus poemas mais conhecidos é fez sensação na intelectualidade antes da independência. Imagina um poema de amor dedicado a uma célebre prostitua de Lourenço Marques...

O segundo (altruísmo) é para ti, mas especialmente para Flora tua filha, já que ela "não acredita em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, Deus e semelhantes... "

Um abraço
Zé Paulo


Rui Nogar (poeta moçambicano)


Xicuembo


eu bebeu suruma
dos teus ólho Ana Maria.
eu bebeu suruma
e ficou mesmo maluco


agora eu quer dormir quer comer
mas não pode mais dormir
mas não pode mais comer


suruma dos teus ólho Ana Maria
matou sossego no meu coração
oh matou sossego no meu coração


eu bebeu suruma oh suruma
suruma dos teus ólho Ana Maria
com meu todo vontade
com meu todo coração


e agora Ana Maria minhamor
eu não pode mais viver
eu não pode mais saber
que meu Ana Maria minhamor
é mulher de todo o gente
é mulher de todo o gente
todo gente todo gente


menos meu minhamor


Altruísmo (em nome de Lavoisier)


eu quero morrer
na devida altura
com caixão de chumbo
lágrimas de família
e cadáver simétrico


mas um padre não mãe
tem paciência
o céu que me destinavas
será o chão que me acolher


e quando já ninguém
estiver observando
e o chumbo se cansar de geometria
e todos me julgarem já inútil


eu regressarei à terra de mansinho


e de livre vontade
de livre vontade vos juro


matarei a fome
a dez milhões de parasitas


isto para que não digam
que não servi para coisa alguma


in "Silêncio Escancarado"


Lembro de Rui Nogar, estamos ficando mais pobres.
Esclarece cá, ô pá! O gajo cá às vezes é burro, noutras doido, ou ainda bobo, mas as três ao mesmo tempo, raramente.
Suruma, que eu saiba, é o equivalente a liamba (Angola) ou maconha (Brasil).
Como diabos Rui fez alguém beber e não aspirar suruma? :-)))
Este poema é muito bom, pois consegue reproduzir o ritmo de um certo palrear moçambicano.
Sempre fui altruísta, pois manifestei, diversas vezes, a vontade de que plantassem um cajueiro sobre o meu cadáver.


MANOEL CARLOS PINHEIRO - Terça-feira, Junho 01, 2004
Comentário e zombaria: